sexta-feira , 1 julho 2022
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Estudo revela fatores sociais que interferem na não-adesão de pacientes ao tratamento pós-transplante renal

Por Marilene dos Santos Nascimento.

O estudo “ANÁLISE SOCIAL DOS PACIENTES RENAIS CRÔNICOS FRENTE ÀS DIFICULDADES NA ADESÃO AO TRATAMENTO PÓS-TRANSPLANTE” teve como objetivo identificar e apontar os fatores sociais que interferem na não-adesão ao tratamento pós-transplante renal. Caracterizou-se por uma pesquisa de campo exploratória, com abordagem qualitativa, realizada com 21 pacientes transplantados renais no Serviço de Transplante Renal do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, no período de um ano, que corresponde a março de 2010 a janeiro de 2011. Este é um resumo da Monografia apresentada ao Programa de Aprimoramento Profissional do HC-FMUSP, como requisito parcial para a obtenção do título de Especialista em Serviço Social em Hospital Geral.

Orientadora: Profa. Dra. Letícia Andrade
Co-orientadora: Neide Anselmo de Oliveira

A pesquisa propiciou-nos: identificar os sujeitos; traçar o perfil socioeconômico desses pacientes; conhecer o impacto da descoberta da doença renal crônica na rotina diária e na qualidade de vida; identificar o tempo de transplante e a origem do doador (vivo ou falecido); explanar sobre os cuidadores; apontar a importância da avaliação psicossocial; apresentar as dificuldades na manutenção do transplante; conhecer as expectativas pré-transplante; analisar a integração com a equipe multiprofissional e o impacto da relação médico-paciente na adesão ao tratamento.

O resultado da pesquisa aponta que os fatores de risco de não-adesão estão co-relacionados com a relação equipe-paciente, entendimento correto das prescrições médicas (analfabetismo funcional), relação familiar, principalmente no que tange ao cuidador, dentre outros fatores. Esses preditores são facilmente identificáveis com acompanhamento efetivo de uma equipe multidisciplinar, pois geralmente os pacientes apresentam não-aderência previamente, ao faltarem constantemente nas consultas e procedimentos médicos.  Com isso, concluímos que ações multiprofissionais integradas são fundamentais no combate aos preditores de não-adesão.

Motivos sociais

A pesquisa de campo foi aplicada para detectar os motivos sociais que interferem na adesão, tais como: dinâmica familiar, situação financeira e de moradia, relação afetiva, suporte familiar, atividade profissional e a relação entre paciente e cuidador, além de propor ações que possam contribuir na atuação da equipe multidisciplinar envolvida nesse processo.

É preciso registrar as dificuldades em encontrar trabalhos que refiram motivos sociais específicos como preditores de adesão, uma vez que trata-se de uma correlação ainda pouco explorada no Brasil.

Alguns dos dados aqui coletados contrariam a literatura consultada. A maioria do universo pesquisado é de homens (67%) com idade de 21 a 30 anos, ou 51 a 59 anos, divergindo dos autores, que apontam o paciente portador de insuficiência renal, em sua maioria, como mulheres adolescentes.

Em contrapartida, outros aspectos analisados reforçam as informações adquiridas nas obras consultadas e vão ao encontro da proposta deste estudo. É muito evidente o impacto que a doença traz ao paciente (91%), que além da debilidade física também é atingido em seu papel social e estrutura psicológica. Estar doente significa não ter mais capacidade de gerir a própria vida e ser visto pela sociedade como um integrante incapaz de prover o próprio sustento e de sua família.

Considerando as mudanças trazidas com o surgimento da doença renal crônica, que vão desde a dieta hídrica e alimentar até tratamentos dialíticos constantes, o apoio familiar e a presença de um cuidador, seja ele formal ou informal, torna-se imprescindível para a adesão ao tratamento. A pesquisa realizada aponta que muitas vezes os dois aspectos se misturam, já que mães e esposas/companheiras de pacientes acabam exercendo papel de cuidadoras, priorizando o preparo da alimentação (26%) e supervisão do uso adequado de medicamentos (26%). Assim também referido por LYRA et al (2008, p. 85):

Percebe-se que a associação entre o gênero feminino cuidado e cuidador se encontram indissociadas. Desde que cuidado foi vinculado à maternidade, o exercício deste foi naturalizado como “instinto feminino”, como “instinto materno”.

 O fato de mães e irmãos serem apontados como principais doadores vivos, também comprova a importância dos laços afetivos durante todo o processo. Sendo assim, é possível afirmar que a ausência de suporte familiar é um dos motivos sociais da não-adesão.

Relação médico-paciente

Nessa pesquisa, está evidente que a relação médico-paciente é um importante preditor de adesão e deve ser melhor trabalhada. É necessário estabelecer uma relação de confiança e parceria com o paciente. Se essa meta for atingida, consegue-se diminuir os fatores de risco de não-adesão. O objetivo é potencializar as pessoas para combater o que causa o sofrimento. BADER (2008, p. 45).

Para que a adesão ocorra de forma consciente é preciso que o paciente e o cuidador compreendam os procedimentos adotados e sua importância. Na pesquisa, a psicóloga aparece como a profissional mais procurada pelos pacientes (26%), o que reflete a necessidade do estreitamento da relação entre o paciente e a equipe médica. Neste caso faz-se necessária a integração e inserção de todos os profissionais (médico, enfermeiro, assistente social, psicólogo e nutricionista) neste processo de proximidade com o paciente, estabelecendo uma relação de confiança e parceria para que o paciente sinta-se à vontade em dialogar e expor suas dúvidas relacionadas ao tratamento. A relação mais próxima permite o aumento de perspicácia aos preditores de não-adesão.

Assistente social: peça fundamental no trabalho de sensibilização do paciente

A pesquisa demonstra a necessidade de um trabalho intenso neste sentido, já que 90% dos pacientes entrevistados não foram encaminhados para o assistente social, o que acarreta na ausência de informações importantes ao paciente como: o direito a benefícios assistenciais e a durabilidade dos mesmos; avaliação da dinâmica familiar; identificação da necessidade de um cuidador; sensibilização sobre a importância do autocuidado, e avaliação sobre a reordenação da atividade profissional. É preciso desmistificar o papel do assistente social, cuja atuação hoje, nesse segmento, restringe-se ao auxílio a pacientes que declaram incapacidade financeira para aderir ao tratamento. Em conjunto com o psicólogo, o assistente social torna-se peça fundamental no trabalho de sensibilização do paciente, objetivando a compreensão e, conseqüentemente, adesão do paciente ao tratamento.

Trabalho interdisciplinar

Dessa forma, sugerimos que seja trabalhada a inserção afetiva do assistente social no processo pré e pós-transplante. Propomos, para tanto, reuniões periódicas entre esses profissionais, com o objetivo de criar metodologias e ferramentas que permitam a integração e troca de informações sobre o paciente. O objetivo é a criação de um trabalho interdisciplinar ou até mesmo transdisciplinar, que terá um único propósito – a melhora da qualidade de vida do paciente e a diminuição dos preditores que acarretam em não-adesão.

Após a apresentação desta proposta de análise com base em Minayo (2004, p. 79), reforçamos que o produto final da análise de uma pesquisa, por mais pertinente que possa ser, precisa ser sempre encarado de forma provisória e aproximativa. Esse posicionamento por nós partilhado se baseia no fato de que, em se tratando de ciência, as afirmações podem superar conclusões prévias a elas e podem ser superadas por outras afirmações futuras.

Sobre a autora

Marilene Nascimento é graduada em Serviço Social pela Faculdade Paulista de Serviço social (FAPSS/SP), especialista em Serviço Social de Hospital Geral pelo Hospital das Clínicas (SP) e em Gestão e Organizações do 3º Setor pela Faculdade Getúlio Vargas (SP).

Atuou como Assistente Social em algumas instituições de saúde (Hospital Samaritano de São Paulo e Hospital das Clínicas de São Paulo), além de trabalhar com habitação urbana na empresa Diagonal Urbana Consultoria. Também, realizou estágios acadêmicos nas seguintes instituições: Hospital Sírio Libanês (Projeto Abrace o Seu Bairro), Hospital Pérola Byington (Centro de Referência da Saúde da Mulher), Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (assistindo adolescentes em medida socioeducativa em parceria com a Fundação Casa e profissionais da instituição no setor de Recursos Humanos) e Fórum Criminal Ministro Mario Guimarães (Central de Penas e Medidas Alternativas para adultos).

Veja mais detalhes sobre a carreira de Marilene Nascimento em:

https://www.linkedin.com/in/marilenenascimento/

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