segunda-feira , 24 junho 2019
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Tem coragem de engolir um nanorobô para nadar no seu sangue?

Tem coragem de engolir um nanorobô para nadar no seu sangue?

Por Michel Levy *

Pela primeira vez na história, o especialista em cirurgia gastrointestinal Antonio de Lacy realizou uma cirurgia com telementoria através de uma rede de quinta geração (5G) de telefonia móvel. Diante de um auditório lotado durante apresentação no MWC19, evento realizado em Barcelona no final de fevereiro passado, o médico auxiliou remotamente uma equipe cirúrgica formada por cinco médicas e dois anestesistas do Hospital Clínic de Barcelona na retirada de um tumor de intestino.

De acordo com relatório da Frost & Sullivan, o mercado global de Ciências da Vida deverá chegar a US$ 1,5 trilhão em 2022 por conta do interesse das gigantes de tecnologia no setor, entre elas Amazon, Google, Apple, IBM, Microsoft e Samsung. Das 10 tecnologias mais inovadoras do momento apontadas este ano por Bill Gates para MIT Technology Review, revista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, 4 estão diretamente relacionadas com a área de saúde:

  • A possibilidade de uma grávida saber se tem maiores chances de ter um bebê prematuro a partir da descoberta do bioengenheiro Stephen Quake, da Universidade de Stanford, de como detectar e sequenciar as pequenas quantidades de material genético cell-free analisando uma pequena amostra de sangue, eliminado a necessidade de procedimentos invasivos.
  • O uso de uma pílula contendo microscópios em miniatura, desenvolvida por Guillermo Tearney, patologista do Hospital Geral de Massachusetts, que, ao ser engolida, analisa o intestino em busca de sinais de EED (Disfunção Entérica Ambiental), doença assintomática que causa inflamações crônicas que impedem o órgão de absorver todos os nutrientes necessários, causando desnutrição e comprometendo o desenvolvimento.
  • Novas vacinas personalizadas contra o câncer, desenvolvidas pela startup alemã BioNTech, que ainda estão em teste e, se bem sucedidas, poderão acionar o sistema imunológico do paciente para produzir células para identificar, atacar e eliminar células cancerígenas.
  • Relógios inteligentes que fazem eletrocardiograma, permitindo identificar sintomas de um derrame ou ataque cardíaco com a mesma precisão de um aparelho médico utilizado nas clínicas e hospitais.

Crédito: Leander Kahney/Cult of Mac

Além da telemedicina, que será cada vez mais praticada na medida em que a Internet ganha estradas cada vez mais velozes, os avanços tecnológicos em áreas como Inteligência Artificial e Internet das Coisas irão trazer dois grandes ganhos para nossa saúde: uma medicina mais preventiva e, ao mesmo tempo, uma maior rapidez em chegar a diagnósticos precisos, o que irá viabilizar o início do tratamento em estágio inicial, diminuir as emergências médicas e aumentar as chances de cura.

Com uma análise de dados coletados de diversas fontes e a possibilidade de consultar outros médicos a distância, inclusive realizando procedimentos complexos como demonstrou de Lacy, a expectativa é que iremos cada vez menos aos consultórios e os profissionais de saúde terão cada vez mais informações para orientar que condutas devemos tomar para manter uma rotina mais saudável e os cuidados imediatos no caso de apresentarmos determinados sintomas.

Os wearables serão incorporados no nosso guarda-roupa para monitorar nossa saúde 24 horas por dia em tempo real. Seu celular, seu relógio e até mesmo sua aliança estarão coletando o tempo todo dados sobre sua saúde que irão alimentar pela nuvem seu prontuário eletrônico. No caso de um ataque súbito, seu plano de saúde será imediatamente informado e você receberá as informações do que fazer enquanto espera a chegada dos paramédicos.

O Relatório Economia da Saúde divulgado pelo Imperial College Health Partners (ICHP) mostrou que, no Reino Unido, são necessários em média 5,6 anos, oito clínicos (incluindo quatro especialistas) e três diagnósticos incorretos até que uma doença rara seja corretamente identificada. Quanto mais dados estiverem disponíveis, quanto mais informações disponibilizarmos sobre nossa saúde, mais vidas serão salvas e mais epidemias serão controladas antes de se espalharem.

 Teleconsultas

Em pesquisa realizada em dezembro de 2018 pela Associação Paulista de Medicina/Global Summit, com retorno espontâneo de 848 entrevistados, 84,67% dos médicos afirmaram usar ferramentas de TI para observação dos pacientes e para otimizar o tempo da consulta. O prontuário eletrônico é a ferramenta mais utilizada, com 76,75% das respostas entre os que já incorporaram a tecnologia na rotina.

O Conselho Federal de Medicina chegou a aprovar recentemente resolução que autorizava os médicos brasileiros a atenderem seus pacientes pela Internet para realização de consultas, diagnósticos e outros procedimentos a distância. Mas depois de muita polêmica, a resolução foi revogada.

O assunto ainda vai gerar muita discussão entre as entidades médicas, mas me parece inevitável o avanço da telemedicina e da consulta virtual para casos mais simples, o que aceleraria o atendimento especialmente em um País como o Brasil, que tem muitas populações que moram em regiões muito afastadas onde não há profissionais de saúde.

Na Europa, 24 dos 28 países membros possuem legislação sobre teleconsulta. Destes, 17 permitem a consulta remota de forma plena e apenas três com restrições (emergências, áreas com carência de médicos e necessidade de primeira consulta presencial). Alemanha, Eslováquia e Itália ainda não permitem o atendimento a distância.

Medicina mais preventiva

Para acelerar a descoberta do diagnóstico, a startup Human Longevity Inc realiza a análise da sequência completa do genoma para descobrir um tumor ou uma anormalidade cerebral em desenvolvimento e cortar rapidamente o mal pela raiz antes que se desenvolva.

No final de 2018, a HLI publicou resultados reveladores dos primeiros 1190 clientes, principalmente porque os pacientes eram todos financeiramente confortáveis (o acompanhamento custa na faixa de 25 mil dólares) e tinham acesso aos melhores médicos.

Os dados mostraram que 2% tinham tumores previamente desconhecidos e foram detectados pela ressonância magnética; 2,5% tinham aneurismas previamente não detectados; 8% tinham arritmia cardíaca; e 30% tinham gordura hepática elevada não identificada anteriormente.

Resumindo, 14,4% dos clientes descobriram informações relevantes sobre a saúde que exigiam acompanhamento ou intervenção imediata. Já 40% descobriram informações de longo prazo que serão fundamentais para a saúde.

Uma aliança para monitorar sua saúde e nanorobôs que nadam no seu sangue

Crédito: Oura

Um relatório da Wise Guy Reports sobre “Internet das Coisas (IoT) no mercado de assistência médica” revelou que esse setor deve alcançar US$ 477,9 bilhões em 2025. De acordo com projeções do Plano Nacional de IoT, uma iniciativa do BNDES, estima-se que até 2025 o mercado global de saúde tenha um ganho potencial gerado pela Internet das Coisas de US$ 1,7 trilhão. No Brasil, estima-se que o valor poderá chegar a US$ 39 bilhões.

Nessa linha, temos um bom exemplo de algo que já está no mercado: o anel inteligente Oura, que analisa informações como batimento cardíaco, temperatura e atividades físicas. Dentre os recursos interessantes do anel estão a conexão Bluetooth, funcionamento autônomo e sensor de acelerômetro. O acessório tem ainda uma memória que armazena até três semanas de dados e um chip ARM Cortex no processamento.

O aplicativo para controlar os dados pelo celular oferece dicas para otimizar o sono, atividades diárias e outras dicas para melhorar a saúde do usuário. São apresentados gráficos indicativos dos resultados em uma plataforma pessoal fácil de usar. O registro é analisado e identifica etapas do sono entre o mais profundo, REM, sono leve e períodos desperto.

Já com o avanço dos nanorobôs será possível monitorar inúmeros novos parâmetros e até mesmo diagnosticar doenças. Recentemente, os pesquisadores do MIT construíram robôs em escala micro capazes de detectar, registrar e armazenar informações sobre o corpo humano. Esses minúsculos robôs, com cerca de 100 microcentimetros de diâmetro, podem realizar tarefas computacionais pré-programadas.

Os engenheiros da Universidade da Califórnia, em San Diego, desenvolveram nanorobôs alimentados por ultrassom que nadam eficientemente pelo sangue, removendo bactérias nocivas e as toxinas que produzem. Em breve, com o desenvolvimento da tecnologia, esses robôs farão entrega direcionada de medicamentos e ações corretivas no corpo humano.

E você? Aceitaria ser monitorado o tempo todo pelo seu médico? Faria uma teleconsulta? Tomaria uma pílula com um robô para navegar pelos seus órgãos e analisar se está doente?  A tecnologia vai colocar sua saúde na palma da sua mão. Cuidar da sua vida dependerá mais e mais do compartilhamento dos seus dados. Só vai depender de você.

 (*) Michel Levy é CEO da Omnilink, empresa que oferece integração de soluções para segurança e prevenção de risco, gestão de frotas, monitoramento de veículos e telemetria. É também Conselheiro independente do Grupo

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