sábado , 15 maio 2021
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Logística Internacional na Pandemia: as fases do caos

Logística Internacional na Pandemia: as fases do caos

Por Jackson Campos*

 

Eu trabalhava em um operador logístico no início de 2020 quando a pandemia de Covid-19 era apenas uma ameaça em Wuhan, na China, primeiro epicentro da doença. Pouco se sabia, muito se especulava e minha primeira atuação direta no assunto foi tratando uma pilha de solicitações de cotações de transporte internacional para exportação de máscaras do Brasil para o maior produtor deste EPI no mundo. Em poucas semanas esgotamos toda a produção nacional até que a Anvisa publicou uma resolução de diretoria colegiada informando que passaria a controlar a exportação de máscaras e outros equipamentos de proteção.

Pouco tempo depois, foi a vez do álcool em gel. O fluxo foi parecido: picos de exportação, preço em alta no mercado nacional (no mercadinho perto de casa custava uma fortuna), desabastecimento no mercado interno, barreira sanitária para exportação e ficamos sem álcool em gel para uso próprio, pois a substância principal para a produção é importada e a pandemia comprometeu a logística internacional no mundo todo, tornando o custo do frete mais caro que o do próprio insumo.

Em seguida, veio a corrida do teste covid, dos termômetros, dos respiradores e dos oxímetros. Uma enxurrada de importações de todos os lados. Aviões e mais aviões abarrotados de testes e respiradores vindo de todas as direções. Índia, China e Estados Unidos lideravam no ranking de origens e novamente, a agência reguladora precisou intervir para colocar ordem sem comprometer o abastecimento. Não precisava muito, bastava o exportador estar registrado entre os fabricantes confiáveis que era possível que qualquer empresa pudesse fazer a importação, desde que ela estivesse habilitada para atuar no comércio exterior.

E todo tipo de empresa importou estes itens: fabricantes de máquinas, lojas de roupa, de material para escritório e quem mais tivesse um dinheiro para investir.

E então, o primeiro grande lockdown pelo mundo. Países de todos os continentes começaram a restringir a entrada e estrangeiros. Depois passaram a limitar a circulação de pessoas para praticamente qualquer lugar, incluindo dentro das cidades. E com a proibição de circulação, foi dada a largada para a primeira corrida por matérias primas para a indústria farmacêutica, já que a índia, maior produtor de insumos para medicamentos do mundo estava totalmente paralisada.

E surgiu a cloroquina, hidroxi-cloroquina, Ivermectina e diversos outros possíveis medicamentos que trariam a tão sonhada cura. Nova onda de importações, que continuaram por um tempo, mesmo havendo logo comprovação da ineficácia de qualquer tratamento precoce.

Até então, aproximadamente há um ano atrás, estávamos com uma lotação de média para alta nas UTIs para tratamento do novo corona vírus. Fizemos aquilo que chegou mais perto de ser um isolamento sério no Brasil até agora, que veio seguido de um platô na curva do índice de mortes e uma queda. E enquanto o mundo inteiro já estava em pesquisa para desenvolvimento de uma vacina em tempo recorde, iniciamos, a desativação dos hospitais de campanha recém-inaugurados, pois eles pareciam não ser mais necessários.

Pouco tempo depois, o assunto era o imunizante. Quem vai fabricar? Quem pode importar? Será um sonho distante?

E o ciclo iniciou novamente. Vamos cotar transporte de vacina, estudar a importação, planejar distribuição e devolução de contêineres aéreos, trabalhar para que a logística e desembaraço seja rápido e simples. Criamos uma cartilha que descreve o passo a passo para a importação e liberação de vacinas prontas e matérias primas por iniciativa do ProComex, que conseguiu unir todos os atuantes do setor com o mesmo propósito humanitário de agilizar o processo como um todo.

Uma, duas, três vacinas aprovadas pela Anvisa para uso emergencial ou definitivo e a população brasileira começou a ser imunizada em um domingo, após a transmissão da reunião da diretoria colegiada em rede nacional.

A primeira vacina aplicada no Brasil foi a CoronaVac, produzida em parceria entre o Instituto Butantan e a Chinesa Sinovac Biotech. Em seguida a Fiocruz importou suas primeiras doses após um desentendimento  entre autoridades brasileiras e indianas e muita especulação.

Mas não acabou por aí. Os índices de contaminação voltaram a subir de uma forma nunca vista em consequência das festas de fim de ano e os leitos dos hospitais da região norte do país lotaram rapidamente, causando uma crise por falta de oxigênio, gerando uma nova demanda por importação de cilindros com o gás nobre que viria de todas as partes possíveis do globo, incluindo, a Venezuela, vizinho deixado de lado de todas as iniciativas de diplomacia brasileira. Aviões foram fretados pela iniciativa pública e privada.

Agora, quando estamos chegando a 18 meses convivendo com a doença no mundo, quase três milhões de mortos no planeta todo, iniciamos no Brasil uma nova corrida para a importação de medicamentos para intubar pacientes em estado grave porque falta no mercado nacional.

O leitor que chegou até aqui conseguiu concluir que existe um padrão: entramos sempre no círculo entre correr atrás de um item para combate à Covid-19 e tentar adivinhar qual será o próximo a faltar.

Eu tenho participado da logística internacional de praticamente todas as iniciativas de importação e exportação desde que a pandemia começou. Já faltou máscara, já faltou álcool em gel, termômetro, respirador, luva, avental, continua faltando vacina, insumo para a vacina, seringa para vacina, ampola par vacina, oxigênio, cilindro de oxigênio, medicamento para intubação e contando.

Sou um profissional da saúde que não atua na linha de frente. Eu fico em uma mesa seguro dentro de casa enquanto profissionais de linha de frente literalmente se matam para salvar vidas todos os dias, mesmo sabendo que o índice de mortalidade entre os casos mais graves é de mais de 80%.

Eles não desistem e eu também não vou desistir, vou continuar contribuindo com a minha parte pelo tempo que for necessário para abastecer o país, independentemente do que possa vir a faltar.

Mas eu estou cansado.

Jackson Campos é Diretor de Mercado Farmacêutico e RIG na AGL Cargo

 

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