A investigação de terapias imunomoduladoras para pacientes com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) ganhou destaque depois que um subgrupo de indivíduos com a condição apresentou disfunção do sistema imunológico, caracterizada por estado pró-inflamatório crônico, perfis de citocinas alterados (como IL-6 e TNF-α), desequilíbrios de células T e presença de autoanticorpos.
A Dra. Ekaterini Simões Goudouris, Coordenadora do Departamento Científico de Erros Inatos da Imunidade (EII) da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), destaca que o estudo das imunoterapias no TEA é um campo de pesquisa promissor, mas ainda em estágio muito inicial. “Nosso objetivo é esclarecer a comunidade médica e o público sobre o que as evidências atuais realmente apontam, separando a esperança da comprovação científica”, comenta Dra. Ekaterini.
Desta forma, a ASBAI preparou um documento onde examina diversas estratégias de imunoterapia para TEA, incluindo:
- Imunoglobulina Intravenosa (IVIG): Um estudo de Connery et al. (2018) mostrou relatos parentais de melhora em 90% das crianças com encefalopatia autoimune e TEA tratadas com IVIG, com 71% observando avanços em dois ou mais sintomas. Houve melhorias significativas em escalas comportamentais e associações com biomarcadores específicos. No entanto, estudos randomizados e controlados por placebo, de menor porte, apresentaram resultados mistos, e os efeitos adversos foram comuns, embora geralmente leves e transitórios.
- Terapia com Interleucina-2 de Baixa Dose (Ld-IL-2): Um relato de caso de Chen et al. (2025) indicou melhorias comportamentais e modulações imunes em crianças com TEA e disfunção imune. Estudos pré-clínicos em modelos animais também sugerem benefício nos sintomas nucleares, associados à expansão de células T reguladoras. Esta é uma terapia emergente e que tem se mostrado segura nos estudos disponíveis.
- Terapias Celulares (Células-Tronco): Metanálises mostram melhorias em escalas comportamentais, mas há alta heterogeneidade entre os estudos. Um ensaio clínico randomizado e rigoroso da Duke University (NCT01638819), por exemplo, não demonstrou benefício significativo no desfecho primário. Embora o perfil de segurança a curto prazo seja geralmente aceitável, riscos mais sérios (como convulsões e aloimunização) são possíveis, e a segurança a longo prazo é desconhecida.
- Modulação do Microbioma (Probióticos e Transplante de Microbiota Fecal – TMF): Metanálises para TMF relatam melhorias significativas em pontuações comportamentais e sintomas gastrointestinais, com ensaios clínicos randomizados em andamento. Estudos com probióticos específicos, como Lactobacillus reuteri, também demonstraram melhorias na função social. Enquanto probióticos são considerados muito seguros, o TMF acarreta riscos potenciais de transmissão de patógenos.
A Dra. Ekaterini Goudouris enfatiza: “A literatura ainda carece de estudos robustos, como ensaios clínicos randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo, que são o padrão-ouro. Muitos estudos têm amostras pequenas, seguimento de curto período e resultados inconsistentes. Além disso, a grande heterogeneidade do TEA e a ausência de biomarcadores validados tornam desafiadora a identificação de pacientes que poderiam se beneficiar dessas terapias”, alerta a Coordenadora da ASBAI.
“A especialista explica que “até que ensaios clínicos rigorosos, em larga escala e estratificados confirmem a eficácia e a segurança a longo prazo, as imunoterapias para o TEA devem ser consideradas tratamentos experimentais e devem permanecer no domínio da pesquisa.”
A ASBAI reitera que o padrão-ouro de cuidado e a base fundamental do tratamento para o TEA continuam sendo as intervenções comportamentais e educacionais, que possuem eficácia comprovada.
Para pacientes e familiares, a ASBAI reforça a importância de sempre consultar um profissional de saúde qualificado para qualquer decisão terapêutica, evitando tratamentos não comprovados que podem gerar e riscos à saúde e custos desnecessários.
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