sexta-feira , 18 outubro 2019
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Brasileiros têm vergonha de falar sobre depressão. Por quê?

Brasileiros têm vergonha de falar sobre depressão. Por quê?

Por Dr. Primo Paganini.*

Que a depressão é uma doença com base também neurológica que afeta milhões de pessoas e traz impacto nas relações pessoais e profissionais de cada uma delas, todos já sabem. Agora, que ela pode ser considerada também um fator de risco para doenças cardíacas, tenho certeza que é novidade para muitos.

Estudos já mostram como a relação entre cérebro e coração ultrapassa apenas aspectos de razão e emoção e chegam a dividir muitos outros. Pessoas deprimidas apresentam alto risco para infarto agudo no miocárdio e AVE, o “derrame”, além de doenças cardiovasculares.

O estresse gera uma inflamação (mensurável) e hiperativação amigdaliana (região do medo e da agressividade) e como consequência uma redução neurotransmissora, causando lesões epigenéticas, menor neuroplasticidade, lesões no neurocircuitos, menos BDNF e redução da neurogênese.

O que isso significa? Que a depressão, ao ser uma doença inflamatória, além de impedir que o cérebro funcione da forma correta, causa morte dos neurônios, reduz a produção cerebral de substâncias neuroprotetores, dificulta a comunicação entre diversas áreas cerebrais e torna o ambiente cerebral “hostil” ao funcionamento fisiológico normal, dificultando que áreas cerebrais evoluídas consigam controlar as regiões cerebrais responsáveis pela agressividade. Como se não bastasse, atinge negativamente o sistema cardiovascular, que estará propenso, ao longo dos anos, ao desenvolvimento da hipertensão, diabetes, elevação do colesterol e triglicérides, aumento da gordura visceral abdominal, até trombose e arritmias cardíacas.

As descobertas levam a relação de pacientes com a depressão para outros patamares, visto que ainda ouvimos muitos dizerem que este tipo de doença mental é “frescura”, ou “coisa da sua cabeça”, e faz com que se crie um tabu diante do quadro levando pessoas a esconderem o diagnóstico de familiares, colegas de trabalho ou amigos.

Isso nunca aconteceria com alguma doença cardíaca. Ninguém tem vergonha ou se sente culpada por sofrer um infarto, ou tomar remédios contínuos para a pressão ou qualquer outro problema cardíaco.

Está mais do que na hora de tratarmos depressão e doenças mentais como depressão, ansiedade ou bipolaridade, com a devida atenção e cuidado. Os números já nos alertam para olhar para estes problemas, que já atingem mais pessoas do que doenças como o câncer, de acordo com dados Organização Mundial da Saúde (OMS)

O Brasil já é líder mundial no ranking de ansiedade. Segundo dados da OMS, o País tem o maior número de pessoas ansiosas do mundo: 18,6 milhões de brasileiros (9,3% da população). Em depressão também estamos no topo, líderes em números de casos em toda a América Latina.

Nosso corpo é um só, e responde de forma conectada aos problemas que nos atingem, sejam físicos ou psicológicos. Finalizo esta reflexão te perguntando: como está a sua conexão cérebro-coração?

*Dr. Primo Paganini é Médico psiquiatra e CMO do eCare Group.

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