quarta-feira , 16 janeiro 2019
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Manufatura avançada: ameaças e oportunidades para o Brasil

Manufatura avançada: ameaças e oportunidades para o Brasil

Por: Jair Calixto*

Nos últimos quatro anos se intensificaram as informações, reportagens, livros, eventos, reuniões e publicações destinados a abordar esta nova fase da economia mundial. O termo manufatura avançada foi definido em 2012, nos EUA através da Advanced Manufacturing Partnership (AMP), com empresas, universidades, governo e institutos de pesquisas para discutir e apresentar propostas para o desenvolvimento da Indústria 4.0 nos EUA. Em 2014, o grupo apresentou o “Report to the President. Accelerating U.S. Advanced Manufacturing”, que propõe a implementação de um plano estratégico nacional para Indústria 4.0.

Na Alemanha, o desenvolvimento da Indústria 4.0 é tratado como prioritário para o país ampliar sua competitividade. O relatório “Recommendations for implementing the strategic initiative Industrie 4.0” , da Academia Alemã de Ciência e Engenharia (ACATECH), lançado em 2013, é uma dessas iniciativas. Qualquer que seja a rotulagem que se dê, é preciso entender que o impacto desta nova abordagem será muito profundo, com reflexos em todas as áreas das atividades humanas.

Cabe dizer que Indústria 4.0 é a incorporação, em alta velocidade, da digitalização às atividades industriais, automatizando tarefas e serviços, antes realizados manualmente. O controle da produção ocorre com o uso de sensores e equipamentos conectados em rede e com o uso de sistemas os quais poderão estar em servidores localizados a milhares de quilômetros (também chamados de “nuvem”).

Por meio desta concepção de ideias, toda e qualquer atividade econômica estará sujeita a ser substituída ou modificada pela automação, inteligência artificial, robôs, sistemas inteligentes, tendo como base a tecnologia da informação, computação em nuvem e os sensores. Os especialistas no assunto garantem que esta é a maior mudança da história, nas atividades econômicas, que a humanidade já experimentou e com uma velocidade de implementação muita maior do que já se viu antes.

Klaus Schwab, em seu livro “A quarta revolução Industrial¹”, defende que são 3 os fatores que nos levam a concluir que estamos vivenciando a 4ª revolução Industrial: a Velocidade com que as mudanças ocorrem, a Amplitude e Profundidade das mudanças, com inovações surpreendentes numa alta frequência e o Impacto Sistêmico, com transformação de sistemas inteiros entre países e dentro deles, na sociedade, nas organizações e na população.

Em qualquer livro ou reportagem sobre o assunto, está bem destacado, que uma das grandes preocupações é a possível perda de empregos, com pessoas sendo substituídas por máquinas, robôs, sistemas e computadores com inteligência artificial e sensores capturando, armazenando e tratando automaticamente as informações que antes eram digitadas ou recolhidas por aquelas pessoas.

As perguntas são: como devemos agir? O que os governos deviam fazer? Como devemos nos preparar? E, principalmente, como preparar os mais jovens para enfrentar estes enormes desafios?

Entendo que deva ser estabelecido um plano estratégico para entender, compreender o processo e, rapidamente, criar mecanismos para estimular a sociedade como um todo a se recapacitar e se preparar para um futuro (muito próximo da gente, por sinal) e que, de alguma forma, irá modificar completamente o modo como trabalhamos, vivemos, e nos relacionamos.

O trabalho, como se conhece hoje, será totalmente modificado. Profissões serão extintas, empresas desaparecerão, surgirão novas profissões, novos profissionais, novas empresas, novos negócios e surgirá uma nova demanda. Porém, a transição será dura.

O Brasil, que já possui um déficit de educação (a básica e a de formação), estudo e capacitação, tenderá a ficar muito mais atrás do que está hoje e com previsão de piora muito mais acentuada. Se já temos uma dificuldade de competitividade, esta vai se acelerar de forma quase incontrolável.

Em um extremo deste processo, o governo tem uma parcela de responsabilidade. Reconhecemos que existem iniciativas de algumas áreas do governo, como MDIC, ABDI, BNDES e MCTIC, os quais têm trazido o tema para debate e apresentado propostas avançadas para todos os setores. Porém, não dá mais para assistirmos Câmaras e Assembleias políticas com membros de capacidade duvidosa. Temos que ter políticos competentes e que planejem o futuro do país. O governo deve estabelecer políticas voltadas para capacitar as pessoas (transformar a educação), propor políticas adequadas para o setor industrial voltar a crescer e exportar, no sentido de melhorar substancialmente a nossa competitividade externa, mirando esta nova realidade. Política comercial externa consistente é uma necessidade absoluta, porque o Brasil precisa exportar manufaturados. Não existe alternativa.

Neste sentido, a indústria pode contribuir muito, já que é um importante gerador de empregos, impostos e riquezas para o país e deve se ser tratada com o devido interesse.

No outro extremo, reside a responsabilidade de cada um de nós. O que eu posso fazer, individualmente, para internalizar estes conceitos, aplicá-los, de modo a não ser ultrapassado? Minimamente, devemos nos manter atualizados, buscando informações, se reciclando, estudando, se preparando e, em cada pequena oportunidade, aplicar os conceitos. Não ter medo de inovar, criar, inventar, porém é preciso se recapacitar, reaprender, ou seja incorporar a palavra da moda,  requalify = requalificar. Pois bem, a tecnologia está à disposição para ser usada.

Paralelamente existe outro processo que caminha na contramão: estamos perdendo o chamado “bônus demográfico”, momento em que uma população possui o maior contingente de mão de obra laboral ativa. Mas é possível nos recuperarmos e aproveitar os benefícios das tecnologias atuais a nosso favor. A criação de startups, com mudança do mindset e reaprendizado, pode reverter este processo.

Precisamos nos mover rápido para enfrentar estes desafios, pois o avanço da tecnologia já está trazendo uma onda gigante de concorrentes, novos produtos e serviços inovadores. Ainda é possível alterar este estado de coisas.

Referências

Brito Silva, Elcio(coord); Scoton, Maria L.R.P.D.; Dias, Eduardo M.; Pereira, Sérgio L. Automação & Sociedade: quarta revolução industrial, um olhar para o Brasil. Rio de Janeiro:Brasport, 2018.

Schwab, K. A quarta revolução industrial. São Paulo:Edipro, 2017.

* Jair Calixto é farmacêutico Bioquímico. Atualmente é Diretor de Assuntos Técnicos e Inovação do Sindusfarma.

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