Por Dr. Deivis O. Guimarães*
O país da biodiversidade sem biotecnologia
O Brasil é, por natureza, um território de vocações biológicas, com aproximadamente 20% de toda a biodiversidade do planeta, distribuída em seis biomas únicos, o país ainda reúne vantagens climáticas, áreas agricultáveis extensas, riqueza hídrica, uma base científica consolidada em diversas áreas da biociência e uma população jovem, criativa e resiliente. Em tese, esses ingredientes nos colocariam naturalmente como uma liderança global em biotecnologia. No entanto, entre a vocação e a vanguarda há um abismo, e esse abismo é mais institucional e estrutural do que genético.
Apesar de figurar entre os dez países com mais empresas de biotecnologia no mundo, mais de 350 companhias ativas, segundo a EMBRAPII (2023), o Brasil investe apenas 1,15% do seu PIB em pesquisa e desenvolvimento, contra uma média de 2,7% entre os países da OCDE, e 4,4% em Israel e Coreia do Sul. A ausência de um plano de Estado para inovação compromete toda a cadeia produtiva, desde a formação de recursos humanos até a transferência de tecnologia.
Essa carência crônica de investimento impacta diretamente a qualidade da formação técnica e científica. Os currículos ainda são excessivamente teóricos, com laboratórios defasados e pouca inserção dos estudantes em experiências práticas que simulem ou reproduzam os desafios reais da indústria biotecnológica. De acordo com a Associação Brasileira de Bioinovação (ABBI, 2023), a demanda por profissionais técnicos especializados em biotecnologia é três vezes maior que a oferta atual.
Estima-se que o país disponha hoje de apenas 7.000 profissionais ativos na área, enquanto a necessidade projetada para 2030 ultrapassa 20.000 especialistas. A consequência direta é um cenário em que empresas de base científica e startups de biotecnologia enfrentam dificuldades para crescer, escalar e se manter operacionais no país. Algumas, diante da escassez de infraestrutura e apoio, optam por transferir suas operações para o exterior, o chamado “êxodo da inovação”.
Esse foi o caso da Gon1 Biotech, a biotech considerada uma das startups brasileiras mais promissoras na área de neurobiotecnologia, responsável pelo desenvolvimento e validação cientifica de probióticos inéditos com nanotecnologia voltados para distúrbios neurológicos como Autismo, Parkinson e Alzheimer, após um convite a empresa chegou a preparar sua transferência para os Estados Unidos, e a mudança só não ocorreu graças a articulação inédita e visionária de uma instituição capixaba, o Instituto Federal do Espirito Santo (IFES), que brilhantemente mudou o rumo dessa história e talvez o rumo da oportunidade para o país em reter essa ciência aplicada em solo nacional.
Mas antes de narrar essa inflexão, é preciso entender o que o mundo já aprendeu sobre como transformar ciência em soberania, e por que o Brasil ainda insiste em tropeçar nesse caminho.
O que o mundo já entendeu e o Brasil ainda precisa aplicar
Enquanto o Brasil ainda busca viabilizar seus ecossistemas de inovação aplicada, diversos países já colhem os frutos de políticas estruturadas de longo prazo, desenhadas para integrar pesquisa, indústria e formação técnica desde a base educacional. O denominador comum entre esses modelos de sucesso é a conexão entre teoria e prática, e a formação em contexto real de aplicação.
Na Coreia do Sul, por exemplo, o investimento em P&D representa 4,81% do PIB (OCDE, 2023), o mais alto entre os países desenvolvidos. O país estabeleceu verdadeiros distritos tecnológicos, como o Daedeok Innopolis, onde coexistem empresas, centros de pesquisa e universidades. O modelo sul-coreano é orientado para resultados e sustentado por políticas fiscais e linhas de crédito voltadas exclusivamente para biotecnologia, nanotecnologia e TI biomédica.
Israel, por sua vez, tornou-se referência mundial em startups de base biotecnológica. O governo subsidia até 85% dos custos de incubadoras tecnológicas, ligadas a universidades públicas. O país forma anualmente mais de 300 startups biotech, com foco em soluções para saúde, segurança alimentar e sustentabilidade. Em Israel, não há espaço entre o conhecimento gerado e sua aplicação direta no setor produtivo.
Na Alemanha, o chamado sistema dual (dualbildung) garante que alunos do ensino técnico passem metade de sua carga horária em empresas conveniadas, o que resulta em empregabilidade acima de 85% nos seis primeiros meses após a formação. Esse modelo, que mistura a robustez da educação pública com a agilidade do setor privado, tornou-se referência na União Europeia.
Na Índia, as bioincubadoras se espalham por diversos estados, com destaque para o Genome Valley, em Hyderabad. A infraestrutura científica associada a políticas de acesso e incentivos fiscais tornou o país um dos maiores exportadores de biofármacos e ingredientes farmacêuticos ativos (IFAs), especialmente voltados à saúde pública global.

Os resultados desses modelos são visíveis: crescimento no número de patentes, internacionalização das startups, aumento da participação da biotecnologia no PIB e, acima de tudo, geração de empregos qualificados. Segundo a WIPO (2022), mais de 70% dos medicamentos em desenvolvimento no mundo hoje têm origem biotecnológica, e mais de 80% dos novos bioinsumos agrícolas nascem em startups ou centros de pesquisa universitários.
Esse contraste com o Brasil é marcante, pois aqui, o número de patentes na área ainda é modesto e altamente concentrado em apenas três estados (São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais), que concentram mais de 80% dos depósitos de patentes biotecnológicas, mas a boa notícia é que algumas regiões começam a reagir, promovendo modelos híbridos de formação e inovação, que podem transformar a paisagem científica brasileira nas próximas décadas.
O Brasil que começa a reagir: Convergência regional e formação aplicada
Embora os obstáculos permaneçam, há sinais promissores de mudança, especialmente em instituições de ensino técnico e federal, com a estratégia de descentralização da ciência e da inovação vêm sendo impulsionado ações concretas em regiões historicamente afastadas do eixo Rio-São Paulo.
Os Institutos Federais (IFs) vêm desempenhando um papel excepcional na construção de uma nova lógica formativa e produtiva. Com atuação nacional e presença em todos os estados brasileiros, os IFs têm implementado políticas de ensino técnico voltadas para a realidade local, mas conectadas com os desafios globais.
Destacam-se casos como o IFPE (Pernambuco), com seu laboratório de fermentação industrial em parceria com cooperativas locais; o IFSC (Santa Catarina), que mantém viveiros de cultivo de células vegetais para biocosméticos; o IFPR (Paraná), com pesquisa aplicada em bioplásticos; e o IFES (Espírito Santo), que consolidou nesse ano um acordo de cooperação técnico com a Gon1 Biotech para desenvolvimento conjunto de projetos em biotecnologia e nanotecnologia. Esse processo deve ser acelerado, com a intenção da GON1 em investir mais de R$ 40 milhões na instalação de um novo Centro de P&D&I no ES, o que deverá colocar o Estado e o IFES em destaque nacional e internacional, como uma referência no desenvolvimento de biotecnologias e nanotecnologias voltadas a saúde humana e bem-estar.
O professor e pesquisador do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES), Dr. Geraldo Andrade, coordenador da proposta da parceria com a empresa GON1, afirma sentir-se profundamente prestigiado por integrar um projeto de tamanha relevância científica e social. Segundo ele, a iniciativa está em plena sintonia com os objetivos estratégicos do IFES, ao promover a ampliação da capacidade instalada de pesquisa, desenvolvimento e inovação da instituição. Além disso, ressalta que a solução proposta representa uma contribuição extremamente significativa não apenas para o atendimento da sociedade capixaba, mas também em âmbito nacional e, potencialmente, internacional, ao oferecer produtos não farmacológicos voltados para o cuidado e acolhimento de pessoas com transtorno do espectro autista (TEA), respondendo a uma demanda crescente por abordagens terapêuticas integrativas e acessíveis.
Essa aliança representa mais do que um ato simbólico: é um passo concreto rumo a um modelo educacional conectado com a economia do futuro, onde estudantes terão acesso a tecnologias reais de produção, testes em escala, ensaios clínicos e validação de produtos, integrando formação, pesquisa e mercado.

Uma janela estreita para um futuro inteligente
O avanço da biotecnologia deixou de ser uma aposta do futuro para se consolidar como um dos pilares do presente tecnológico e econômico global. O mapeamento genético, a terapia celular, os biofármacos, os probióticos inteligentes e a bioengenharia de materiais estão revolucionando setores inteiros, da saúde à indústria têxtil, da agricultura à cosmética.
Segundo a World Intellectual Property Organization (WIPO), mais de 70% das inovações em saúde registradas em 2022 tiveram origem biotecnológica, e o número de patentes de processos envolvendo microorganismos cresceu 125% entre 2015 e 2022 [9], e o Global Market Insights projeta que o mercado global de biotecnologia ultrapassará US$ 3 trilhões até 2030, com crescimento médio anual acima de 9% [10].
Enquanto isso, o Brasil mantém sua posição como exportador primário de recursos genéticos, vendendo a preço bruto insumos que, no exterior, são processados e retornam ao país como produtos sofisticados, e caros, e essa lógica de dependência tecnológica é insustentável a longo prazo e compromete a soberania científica e econômica nacional.
Hoje, o país conta com aproximadamente 7 mil profissionais em atuação no setor de biotecnologia, entre técnicos, mestres e doutores, mas a estimativa da ABBI é de que esse número precisa triplicar nos próximos cinco anos para atender à demanda interna, especialmente com a expansão da bioeconomia [4].
Esse cenário apresenta dois caminhos possíveis: ou o Brasil opta por acelerar a integração entre formação técnica, ciência aplicada e mercado; ou continuará preso ao papel de exportador de biomassa e importador de soluções prontas, perpetuando sua vulnerabilidade industrial e intelectual.
Nesse contexto, os Institutos Federais ganham relevância estratégica. Ao proporcionar formação técnica com acesso prático a equipamentos reais, conexão com empresas e vivência laboratorial aplicada, essas instituições podem ser o motor de transformação da nova geração de profissionais de biotecnologia, especialmente fora dos grandes centros urbanos.
A experiência do IFES com a Gon1 Biotech aponta um modelo viável e replicável, com resultados promissores no curto e médio prazo, sem depender de exclusivamente de estruturas estatais lentas, a combinação de vontade institucional, expertise técnico-científica e articulação com o setor privado pode reverter o atual déficit de inovação em áreas críticas como saúde mental, nutrição, agrobiotecnologia e desenvolvimento de bioinsumos.
Mais do que uma parceria isolada, esse movimento representa um marco na virada institucional brasileira rumo à biotecnologia como estratégia de país, pois ele mostra que é possível manter talentos em solo nacional, reverter o êxodo da inovação e construir conhecimento com impacto internacional, inclusive a partir de estados fora do eixo tradicional de ciência e tecnologia.
Conclusão: A urgência de formar para inovar
O Brasil não pode mais se dar ao luxo de depender da iniciativa heroica de empreendedores visionários ou da resiliência pontual de pesquisadores para sustentar sua inserção no cenário tecnológico global. É preciso política pública, financiamento continuado, infraestrutura moderna e, sobretudo, formação de capital humano capacitado e conectado com a prática.
A biotecnologia não é mais um setor restrito à academia, mas uma engrenagem da nova economia, com potencial de retorno bilionário, geração de empregos qualificados e impactos diretos na qualidade de vida da população.
O país precisa decidir se continuará exportando sua biodiversidade como commodity bruta, ou se se tornará protagonista da bioeconomia global, com soluções próprias, tecnologia de ponta e soberania científica.
E para isso, formar profissionais em biotecnologia é prioridade nacional. Não basta reformar currículos, é preciso transformar estruturas, conectar ensino e pesquisa, criar polos regionais e multiplicar experiências exitosas como a que vem sendo construída no IFES.Se a biodiversidade brasileira é um presente da natureza, o desenvolvimento científico é uma conquista que exige visão, investimento e coragem institucional, e o tempo para isso é agora.
Referências
- Embrapii. Panorama da Biotecnologia no Brasil. 2023.
- OECD. Main Science and Technology Indicators. 2023.
- Fórum Nacional de Educação. Relatório Técnico: Formação Técnica e Prática de Laboratório. 2022.
- ABBI. Relatório Anual de Bioinovação. 2023.
- Ministry of Science, South Korea. National R&D Strategy Report. 2022.
- Israel Innovation Authority. Annual Report. 2023.
- BMBF Germany. Education and Research Strategy. 2022.
- INPI. Panorama de Patentes Biotecnológicas no Brasil. 2023.
- WIPO. World Intellectual Property Report. 2022.
- Global Market Insights. Biotechnology Market Forecast 2030.
*Pesquisador e Diretor de pesquisa da Gon1 Biotech
Doutor Honoris Causa em Biotecnologia aplicada em saúde
Doutorando em gestão e tecnologia industrial: desenvolvimento de novos produtos
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