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Entre a promessa rápida e a cura sustentável: um novo olhar para a saúde
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Entre a promessa rápida e a cura sustentável: um novo olhar para a saúde

Por Dr. Deivis O. Guimarães*

O legado esquecido

Até o início do século XX, a medicina não era apenas a ciência dos laboratórios, e nos cursos de formação havia espaço para a fitoterapia, a homeopatia, a naturopatia e outras práticas tradicionais que viam o paciente como um todo. Os sintomas eram sinais de desequilíbrio e não apenas alvos a serem silenciados.

Esse cenário mudou radicalmente em 1910 com a publicação do Relatório Flexner, encomendado pela Carnegie Foundation com apoio da família Rockefeller, esse documento avaliou as escolas médicas dos Estados Unidos e Canadá e classificou grande parte delas como carentes de rigor científico, e as que ensinavam terapias naturais foram especialmente criticadas. A recomendação foi o fechamento em massa de instituições e a concentração no ensino biomédico.

A consequência foi um corte profundo. A “médica natural” saiu dos currículos e abriu caminho para um modelo centrado em farmacologia, fisiologia e práticas hospitalares. Essa guinada trouxe conquistas extraordinárias, como antibióticos e vacinas, mas também criou uma cultura que associa saúde a medicamentos imediatos. Assim nasceu a era da medicalização, que ainda marca nossa sociedade.

A supremacia farmacológica: promessas rápidas e consequências duras

O século XX consolidou a supremacia dos medicamentos sintéticos, e eles aumentaram a expectativa de vida, permitiram cirurgias seguras e transformaram o combate às epidemias. Contudo, também revelaram suas fragilidades, e em muitos casos, o foco passou a ser suprimir sintomas rapidamente, sem investigar as causas profundas.

Um exemplo recente dessa lógica são as chamadas canetas de emagrecimento, como a semaglutida (Ozempic, Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro). Criadas para o tratamento de diabetes tipo 2, tornaram-se fenômenos de consumo estético. Celebridades, influenciadores digitais e campanhas publicitárias as apresentaram como passaporte imediato para a magreza.

Mas os riscos não são triviais, e pesquisas documentaram aumento expressivo de pancreatite, obstruções intestinais, insuficiência renal e até perda irreversível da visão por neuropatia óptica. Entre 2022 e 2023, mais de 25 mil atendimentos de emergência nos Estados Unidos estiveram relacionados ao uso desses fármacos, mas apesar disso, a mídia continuou a glamourizar resultados rápidos, e nas redes sociais, hashtags como #Ozempic chegaram a centenas de milhões de visualizações, transformando um medicamento em moda sazonal.

Esse movimento mostra a força da medicalização midiática, e o problema da obesidade, que envolve fatores metabólicos, sociais e comportamentais, é reduzido a uma seringa que promete resultados rápidos. O preço, muitas vezes, é pago em complicações graves que superam o risco da própria doença.

A força do marketing na indústria farmacêutica

Se há um motor por trás dessa corrida, ele é o marketing.

Os números globais confirmam essa tendência, em 2022 a indústria investiu cerca de 54 bilhões de dólares em propaganda (Fonte: Kantar), e só em anúncios diretos ao consumidor nos Estados Unidos foram 13,8 bilhões em 2023 (CSRxP). Algumas companhias chegam a destinar um quarto de todas as suas despesas administrativas apenas para marketing, valores que equivalem a mais de 6% de toda a receita anual.

Fonte: eMarketer, 2024.

O gráfico revela como, entre 2020 e 2024, os gastos da indústria farmacêutica com propaganda digital nos Estados Unidos cresceram até atingir quase 20 bilhões de dólares anuais, o que representa 88% de toda a publicidade em saúde no ambiente digital.

A mensagem é clara, o mundo gasta bilhões para convencer, mas investe muito menos para descobrir, e essa desproporção alimenta a medicalização e cria mercados sazonais que consomem recursos que poderiam estar em inovação genuína.

Resistência antimicrobiana: a ameaça invisível

Enquanto a propaganda avança, a inovação em áreas essenciais como antibióticos permanece estagnada. Desde 1987, nenhuma nova classe foi aprovada. O que se vê são pequenas variações de moléculas antigas.

O custo dessa inércia é altíssimo. Em 2019, segundo estudo publicado na The Lancet, 1,27 milhão de mortes foram atribuídas diretamente à resistência antimicrobiana, com quase 5 milhões relacionadas ao problema (Murray et al., 2022). O relatório de O’Neill (2016) projetou que até 2050 esse número pode chegar a 10 milhões de mortes anuais, ultrapassando o câncer como principal causa de mortalidade no mundo.

Esse paradoxo evidencia um desequilíbrio grave. Enquanto bilhões são investidos para promover fármacos sazonais, infecções resistentes avançam sem que novas soluções sejam oferecidas.

O farmacêutico clínico e a farmacognosia: guardiões de um novo ciclo

Diante desse cenário, é urgente valorizar o farmacêutico clínico, pois ele não é apenas um executor de prescrições, mas o profissional capaz de assegurar o uso racional de medicamentos, monitorar desfechos terapêuticos e orientar pacientes com base em ciência. O conceito de pharmaceutical care, definido por Hepler e Strand em 1990, já destacava a corresponsabilidade do farmacêutico pela saúde do paciente.

Mais do que isso, o farmacêutico pode ser protagonista da retomada da farmacognosia, ciência dedicada ao estudo de moléculas bioativas de origem natural. O mundo já conheceu medicamentos históricos derivados de plantas, como a aspirina, a morfina, a quinina e a vincristina. Hoje, a biotecnologia e a nanotecnologia oferecem ferramentas para transformar novamente a natureza em fonte de inovação.

E aqui o Brasil ocupa lugar especial, pois nosso país concentra cerca de 20% da biodiversidade mundial (Myers et al., 2000), mas menos de 15% das espécies vegetais foram estudadas quanto ao potencial farmacológico (Brito et al., 2022). É uma contradição, enquanto Índia e China transformaram biodiversidade em poder econômico, o Brasil ainda exporta matéria-prima e importa tecnologia.

Investir em farmacognosia é investir em soberania, é transformar biodiversidade em terapias, em nutracêuticos, em fitoterápicos padronizados e seguros, e também criar uma indústria verde que alia conservação à inovação científica. O farmacêutico clínico, com sua formação técnica, é o elo que conecta pesquisa básica, cuidado de pacientes e desenvolvimento de novos produtos.

Prof. Dr. Lincoln Marcelo Cardoso, farmacêutico e grande estudioso da farmacognosia, fundador do canal farmacosophia, aluno e colaborador do renomado Prof. Dr. Gokiti Akisue, um dos nomes mais importantes da área em nosso país, relatou como tornou-se evidente o fato da farmacognosia historicamente ser relegada a segundo plano e como precisamos resgatá-la com urgência em todas as universidades brasileiras. Mais do que resgatar, é necessário recolocá-la no centro da formação farmacêutica, valorizando o uso de bioativos e moléculas naturais como parte essencial da terapêutica moderna, e isso implica formar profissionais que não se limitem a atuar atrás de balcões de grandes redes, mas que estejam preparados para a pesquisa, para o desenvolvimento de fórmulas magistrais e para a condução de estudos voltados ao bem-estar humano. É, em última instância, devolver ao farmacêutico o protagonismo na criação de soluções inovadoras, transformando a imensa biodiversidade brasileira em fonte de terapias seguras, eficazes e sustentáveis.

O Brasil e a farmacognosia

O Brasil guarda 20% da biodiversidade mundial, mas participa com menos de 2% do mercado global de fitoterápicos e nutracêuticos, que movimentou US$ 187 bilhões em 2023 e deve chegar a US$ 313 bilhões até 2030 (Grand View Research, 2024).

Exemplos nacionais mostram o potencial: a pilocarpina, isolada do jaborandi e usada no tratamento do glaucoma; o lapachol, derivado do ipê e estudado por suas propriedades antitumorais; os óleos de copaíba e andiroba, reconhecidos por ação anti-inflamatória e cicatrizante.

Apenas o uso sustentável pode justificar a preservação de biomas, e transformar floresta em ciência é criar riqueza que se perpetua.

Probióticos e pós bióticos: a fronteira invisível da medicina moderna

Enquanto a farmacognosia resgata tradições com ciência, os probióticos e pós bióticos abrem uma fronteira de futuro, e eles não são apenas suplementos, mas candidatos a novos tratamentos capazes de modular microbiota, metabolismo e até aspectos cognitivos.

Ji et al. (2023) destacaram que essas substâncias ajudam a restaurar a homeostase intestinal. Pattapulavar et al. (2025) mostraram propriedades imunomoduladoras e antioxidantes. Tomičić et al. (2025) ressaltaram sua segurança e estabilidade. Vinderola et al. (2023) apontaram o avanço regulatório na Europa. Abouelela et al. (2024) descreveram os next generation probiotics, resultado da biologia sintética, como promessas de terapias personalizadas. Guimaraes et al. (2025) demonstraram a eficiência do uso de probióticos na modulação do eixo intestino cérebro, com desfeches significativos na melhoria cognitiva, motora e psicopedagógica de crianças autistas.

Esses estudos mostram que a próxima onda de inovação pode não vir de moléculas químicas inéditas, mas de organismos vivos e seus metabólitos, seguros e eficazes.

Reflexão final

Mais de um século após o Relatório Flexner, a “médica natural” retorna pela porta da ciência. Não como alternativa, mas como parceira legítima da farmacologia moderna. O futuro da saúde está em integrar medicamentos sintéticos a terapias não farmacológicas comprovadas, como probióticos, pós bióticos e moléculas vegetais.

O farmacêutico clínico é o guardião desse processo, e o Brasil, com sua biodiversidade, tem a chance de ser protagonista em uma revolução verde da biotecnologia, e talvez a doutora Natureza nunca tenha saído de cena, mas apenas aguardava que ciência, biotecnologia e consciência coletiva a convidassem de volta ao centro da mesa.

Referências (ABNT)

ABOUELELA, M. et al. Next Generation Probiotics: Advances, Applications, and Challenges in Synthetic Biology. Microorganisms, v. 12, n. 3, p. 430, 2024. DOI: 10.3390/microorganisms12030430.

BRITO, M. R. et al. Brazilian biodiversity as a source of new drugs: strengths and challenges. Phytochemistry Reviews, v. 21, p. 1025–1042, 2022. DOI: 10.1007/s11101- 021-09756-2.

GUIMARÃES, D. O.; et al. Evaluation of the effects of a probiotic mix in autistic children: a randomized, double-blind, placebo-controlled study. In: 18th International Scientific Conference on Probiotics, Prebiotics, Gut Microbiota and Health (IPC 2025). Athens.

FLEXNER, A. Medical Education in the United States and Canada: A Report to the Carnegie Foundation for the Advancement of Teaching. Bulletin n. 4. New York: Carnegie Foundation, 1910.

HEPLER, C. D.; STRAND, L. M. Opportunities and Responsibilities in Pharmaceutical Care. American Journal of Hospital Pharmacy, v. 47, n. 3, p. 533–543, 1990.

IOANNIDIS, J. P. A. Why Most Clinical Research Is Not Useful. PLOS Medicine, v. 13, n. 6, p. e1002049, 2016. DOI: 10.1371/journal.pmed.1002049.

JI, Y. et al. Probiotics, Prebiotics, and Postbiotics: A Review of Their Current and Future Therapeutic Applications. International Journal of Molecular Sciences, v. 24, n. 20, p. 14713, 2023. DOI: 10.3390/ijms242014713.

MURRAY, C. J. L. et al. Global burden of bacterial antimicrobial resistance in 2019: a systematic analysis. The Lancet, v. 399, p. 629–655, 2022. DOI: 10.1016/S0140- 6736(21)02724-0.

MYERS, N. et al. Biodiversity hotspots for conservation priorities. Nature, v. 403, p. 853– 858, 2000. DOI: 10.1038/35002501.

O’NEILL, J. Tackling Drug Resistant Infections Globally: Final Report and Recommendations. Review on Antimicrobial Resistance, 2016.

PATTAPULAVAR, R. et al. Postbiotics: Emerging Therapeutic Opportunities in Human Health. Frontiers in Nutrition, v. 12, p. 1624539, 2025. DOI: 10.3389/fnut.2025.1624539.

THEURETZBACHER, U. et al. No time to wait: securing new antibiotics for future generations. Nature Reviews Microbiology, v. 18, p. 189–190, 2020. DOI: 10.1038/s41579-020-0327-y.

TOMIČIĆ, M. et al. Postbiotics as Innovative Therapeutic Tools: Biological Activities, Mechanisms, and Clinical Applications. Antibiotics, v. 14, n. 7, p. 674, 2025. DOI: 10.3390/antibiotics14070674.

VINDEROLA, G. et al. Regulatory Framework for Postbiotics: Current Developments and Future Perspectives. Frontiers in Pharmacology, v. 14, p. 1239745, 2023. DOI: 10.3389/fphar.2023.1239745.

*Pesquisador e Diretor de pesquisa da Gon1 Biotech
Doutor Honoris Causa em Biotecnologia aplicada em saúde
Doutorando em gestão e tecnologia industrial: desenvolvimento de novos produtos

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