Por Dr. Deivis O. Guimarães*
A explosão do verde e o apelo biotecnológico
Na prateleira da farmácia, promessas brilham em letras verdes: “100% natural”, “biointeligente”, “nanotecnologia quântica orgânica”. Num contexto em que a busca apressada pela saúde preventiva e os cuidados consigo mesmo tornam-se uma obsessão, a indústria nutracêutica aprendia a vender esperança em cápsulas, em sachês e gomas coloridas. Segundo a Euromonitor International, o mercado global de nutracêuticos superou US$ 400 bilhões em 2023, com crescimento médio projetado de 6,8% ao ano até 2030.
O Brasil é lugar de destaque neste consumo voraz, misturando a tradição fitoterápica local com tendências trazidas do wellness californiano, mas de onde vem esse fascínio? A história é antiga.
A botica ocupava, nos séculos passados, o espaço do saber empírico, onde raízes, pós e tinturas eram preparados diante do freguês. As palavras “natural” e “caseiro” tinham um peso de confiança. Hoje, por outro lado, produtos que assim se definem não têm nem semblante de um pilão ou de um almofariz: são fabricadas em escala, em processos industriais sofisticados ou não que se encontram envolvidos por um marketing sedutor. Em um espaço competitivo e regulado, o vocábulo “biotecnologia” tornou-se um talismã: um selo de modernidade que sugere rigor científico, quando não existe. Afinal, nada melhor do que um rótulo sofisticado para transformar capim em ouro.
E não se trata de rejeitar a inovação, mas de que é o rigor científico que faz a verdadeira biotecnologia, em contrapartida a slogans vazios. Em tempos de crescente desconfiança pública com a indústria farmacêutica tradicional, floresce o nutracêutico como solução “natural”, mas frequentemente falta a ele um elemento de rastreabilidade preocupante. Desfiar o joio do trigo será então o desafio do profissional farmacêutico ou, para manter o tom tradicional, separar a tintura genuína do xarope de cobra.
O que é biotecnologia verde de verdade
Para estabelecermos um entendimento inicial claro, é necessário definir o que vem a ser, para fins deste artigo, biotecnologia verde. Para a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD), biotecnologia verde é a utilização de processos biológicos visando ao desenvolvimento de produtos agrícolas, ambientais e industriais, de forma sustentável. Para nosso contexto nutracêutico, significa o uso de microrganismos, enzimas, culturas celulares e técnicas de fermentação para produzir ingredientes ativos com qualidade controlada e impacto ambiental reduzido. Um clássico exemplo é a fermentação do álcool, conhecida há milênios, porém refinada até os dias atuais à produção de bebidas, medicamentos e até mesmo insulina recombinante. Na produção de nutracêuticos, a fermentação de precisão permite cultivar cepas específicas de bactérias para probióticos, ou para enzimas digestivas, com alta pureza. O uso de biorreatores, controle subtendendo que isso é feito em cujo monitoramento do próprio tratamento de todo o Processo; parâmetros físico-químicos, validação de cepas, e análise genética para assegurar a identidade e segurança, cumprem o seu papel nesse processo.
Outro campo importante é a extração enzimática “verde”, que consiste em utilizar solventes menos tóxicos ou água supercrítica para a obtenção de compostos bioativos de plantas, sem resíduos contaminantes. A nanotecnologia embasada no microencapsulamento é outro exemplo legítimo: permite a proteção de ativos sensíveis como as vitaminas lipossolúveis ou os microrganismos probióticos, dos efeitos de degradação no trato gastrointestinal e, com isso, melhora sua biodisponibilidade.
Este conjunto de processos que caracteriza a biotecnologia real, de uma simples “mistureba” de pós no liquidificador industrial. Em suma, não adianta só plantar a semente no Powerpoint, mas sim cultivá-la num biorreator, monitorando cada variável e garantindo a qualidade replicável de lote para lote.
📌 Tabela 1 – Comparação entre Biotecnologia Verde Real e “Biotecnologia Gourmet”
| Característica | Biotecnologia Verde Real | “Biotecnologia Gourmet” |
| Processo | Fermentação, enzimas, cultura celular | Mistura mecânica de ingredientes |
| Base científica | Validada por estudos in vitro e clínicos | Muitas vezes ausente ou mal documentada |
| Rastreabilidade | Documentada e auditada | Opaca ou inexistente |
| Alegações | Reguladas e limitadas | Exageradas ou enganosas |
| Exemplo real | Probióticos com cepas específicas | “Blend biointeligente” sem especificação |
Essa tabela ilustra, de modo didático, o abismo entre processos verdadeiramente inovadores e promessas de marketing vazias que nada mais são do que maquiagem verbal para vender mais caro.
A gourmetização da biotecnologia
Uma das palavras mais maltratadas pela indústria nutracêutica moderna é “biotecnologia”. No rótulo, ela aparece acompanhada de adjetivos como “biointeligente”, “nanotecnológico” e até “quântico”. A maioria deles não é respaldado por qualquer método científico previsível, mas seduz o consumidor em busca de diferenciação. Afinal, Quem quer ANVISA se tem um influencer?
A gourmetização da biotecnologia funciona assim: o produtor pega um processo industrial comum, mistura polivitamínicos de laboratórios da China com matéria prima pura de vegetais padronizados, coloca uma embalagem bem bonita e cria uma história de “tecnologia bioativa de liberação inteligente”. Em certos casos, à propaganda consegue ser mais do que a legislação permite.
No Brasil, a ANVISA estabelece regras, e mediante a RDC nº 243/2018, suplementos alimentares não podem alegar efeitos terapêuticos ou enganosos. Mesmo assim, encontramos promessas de “cura da ansiedade”, “redução de peso que é milagre” e “aumento quântico da imunidade” nas redes sociais. Em 2022, a Agência editou dezenas de autos de infração para este tipo de prática.
Essa desconexão entre discurso publicitário e realidade industrial pode gerar não só descrédito mas também risco à saúde pública. O conceito de que “natural” ou “biotecnológico” é sempre seguro pode levar o consumidor a ignorar interações medicamentosas, contraindicações ou mesmo uso racional de suplementos. Por isso precisamos de um debate sério e fundamentado.
Como diria um farmacêutico mais cínico: “Se fosse para vender promessas vazias, bastaria parar e engarrafar vento.”
Validação e rastreabilidade: ciência versus marketing
Um dos maiores desafios do setor é transformar boas ideias em produtos seguros, eficazes e confiáveis, e esse caminho tem algo que não vai com marketing sensacionalista: evidência científica.
Validar um ingrediente funcional não é somente enunciar que “tal planta tem efeito anti- inflamatório” pelo motivo de que “os índios usavam”. É preciso demonstrar a segurança toxicológica, a dose eficaz e os mecanismos de ação. Os estudos in vitro ajudam a identificar alvos moleculares, os modelos animais esclarecem a farmacocinética e a toxicidade, e os ensaios clínicos – ainda que pequenos – são indispensáveis para validar as alegações funcionais.
No Brasil, para que um suplemento alimentar registre ou notifique um novo ingrediente, precisa apresentar um dossiê técnico robusto à ANVISA que comprove a segurança de uso do ingrediente. Os ingredientes que apresentam histórico de consumo seguro possuem trâmites simplificados, ao passo que os novos ativos necessitam de dados adicionais. O Guia de Comprovação de Segurança da ANVISA (2022) determina todos os requisitos exigidos, incluindo estudos de estabilidade , interações potenciais e rastreabilidade da cadeia produtiva.
Em mercados maduros, como a União Europeia, a EFSA exige comprovações detalhadas para permitir health claimsespecíficos, dependendo da análise de estudos clínicos randomizados e controlados. Nos EUA, a DSHEA de 1994 dá mais liberdade ao fabricante, mas o FDA faz vigilância sobre alegações enganosas e exige o aviso obrigatório “este produto não foi avaliado pelo FDA”.
Infelizmente, uma quantidade expressiva dos produtos vendidos no Brasil nem de longe passa por esse nível de rigor. Importados, revendidos ou manufacturados em regime de terceirização, eles chegam ao mercado com promessas mal fundamentadas e sem rastreabilidade. Em consequência, o consumidor acaba por pagar mais por menos, ou mesmo pior, correr riscos desnecessários.
Papel do farmacêutico e do setor
Diante desse cenário, qual é o papel do farmacêutico? Antes de mais nada, ser um guardião do rigor técnico. Isso significa ter formação sólida para distinguir evidência científica de balela marqueteira, questionar fornecedores, exigir dossiês técnicos e orientar o consumidor de forma ética.
O farmacêutico não pode se contentar em repetir slogans de campanha. Precisa dominar conceitos como biodisponibilidade, farmacocinética, interação medicamentosa e microbiologia industrial. Precisa compreender as resoluções regulatórias, as exigências de notificação junto à ANVISA, as limitações de alegações funcionais.
Mais do que vender, o farmacêutico tem a responsabilidade de educar o paciente. Explicar que “natural” não significa isento de risco, que “biotecnologia” não é sinônimo de eficácia sem comprovação e que até o chá mais inocente pode interagir com um anticoagulante.
O setor também tem responsabilidades. Incentivar a pesquisa nacional, investir em estudos clínicos locais, desenvolver cadeias produtivas rastreáveis e valorizar a ciência brasileira. A indústria que apenas embala pós importados e vende promessas duvidosas não só desrespeita o consumidor, como mina a credibilidade de todo o mercado.
Conclusão: o futuro do setor
O mercado nutracêutico brasileiro tem uma oportunidade singular. Nosso país abriga a maior biodiversidade do mundo, tem um patrimônio tradicional de fitoterapia muito rico e tem centros de pesquisa de alto desempenho. A biotecnologia verde pode, de maneira correta, transformar esse patrimônio em produtos seguros, eficazes e sustentáveis, que melhorem a saúde pública e impulsionem a economia.
Contudo, há risco real: o da “biotecnologia gourmet”. Um modelo de negócio que investe mais em publicidade do que em pesquisa, que traz promessas sem rastreabilidade, que ignora o consumidor em troca de ganho.
Nos cabe, profissionais da saúde e da indústria, decidir qual caminho seguir. Seremos parte de um futuro onde as farmácias vendem evidência ou parte de um presente onde as farmácias vendem ilusão?
É biotecnologia verde ou gourmet? A escolha está no rigor e não no rótulo.
Referências
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. RDC nº 243, de 26 de julho de 2018. Dispõe sobre suplementos alimentares. Diário Oficial da União, 2018.
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Guia para comprovação da segurança de uso de novos ingredientes em suplementos alimentares. Brasília: ANVISA, 2022.
EUROMONITOR INTERNATIONAL. Nutraceuticals Global Market Report. Londres: Euromonitor, 2023.
FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). Dietary Supplement Health and Education Act of 1994. Washington, DC: FDA, 1994.
EUROPEAN FOOD SAFETY AUTHORITY (EFSA). Scientific requirements for health claims related to gut health and immunity. EFSA Journal, 2011.
KAUR, A.; DAS, M.; BHATNAGAR, V. Regulatory landscape of nutraceuticals in India, EU and US: An update. Food Control, v. 92, p. 181-189, 2018.
ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT (OECD). The Bioeconomy to 2030: Designing a Policy Agenda. Paris: OECD Publishing, 2009.
FAO. Biotechnology in food and agriculture. Rome: Food and Agriculture Organization of the United Nations, 2013.
CONSELHO FEDERAL DE FARMÁCIA (CFF). Guia Farmacêutico para Suplementos Alimentares. Brasília: CFF, 2020.
*Pesquisador e Diretor de pesquisa da Gon1 Biotech
Doutor Honoris Causa em Biotecnologia aplicada em saúde
Doutorando em gestão e tecnologia industrial: desenvolvimento de novos produtos
2A+ Farma Portal de notícias
