Por Dr. Deivis O. Guimarães*
O conceito de empregar microrganismos vivos na promoção da saúde não é novo, como em 1907, o imunologista russo Ilya Metchnikoff, ganhador do Prêmio Nobel, sugeriu que a razão pela qual camponeses búlgaros eram longevos era por causa do consumo regular de iogurte fermentado com bacilos lácticos. Com base nessa observação etnográfica, Metchnikoff fez a hipótese de que determinadas bactérias poderiam neutralizar os efeitos da microbiota intestinal, que teriam efeitos putrefativos, e assim prolongar a vida, embora intuitivo e limitado pelos métodos disponíveis na época, o trabalho inicial de Metchnikoff lançou a semente da atual ciência probiótica e, assim, criou uma nova abordagem terapêutica focada na ecologia microbiana.
Na maior parte do século XX, os probióticos eram considerados alimentos funcionais, com eficácia discutível e sem padronização científica, e somente na virada do milênio, com a biologia molecular, a genômica e a metabolômica, foi possível compreender a complexidade da microbiota humana, bem como o seu papel em processos fisiológicos essenciais. Descobriu-se, por exemplo, que o intestino humano alberga mais de 100 trilhões de microrganismos, que os genes dos microrganismos superam 150 vezes os genes humanos, e essa comunidade, perfeitamente especializada e interativa, contribui não só para a digestão, mas para a regulação da imunidade, do humor, da cognição e até mesmo da expressão gênica.
Com essas descobertas, o conceito de probiótico passou a ser revisado. Em 2014, o grupo da ISAPP (International Scientific Association for Probiotics and Prebiotics), liderado por Hill et al., redefiniu os probióticos como “microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, conferem benefícios à saúde do hospedeiro” (Hill et al., 2014). A definição, aparentemente simples, impôs um novo desafio: o que é “quantidade adequada”? A resposta, longe de ser universal, depende da cepa, da condição clínica, do indivíduo e da tecnologia de entrega. É nesse ponto que a ciência contemporânea começa a se afastar das megadosagens e a caminhar para um modelo de precisão funcional.
Evidências atuais: Quando menos é mais
Estudos recentes, de grande relevância, demonstraram que doses muito mais baixas, na faixa entre 10⁶ e 10⁸ UFC por dia, podem produzir efeitos clínicos equivalentes ou até mais fortes que a administração de megadoses. McFarland (2015), em uma revisão sistemática, encontrou que quase metade dos estudos com doses abaixo de 10⁹ UFC/dia mostraram efeitos clínicos benéficos em resultados como diarreia relacionada com antibióticos, constipação funcional e prevenção de enterocolites.
Halpern et al. (2020) mostraram que Bifidobacterium longum administrada em dose de apenas 5 x 10⁷ UFC/dia conseguiu reduzir sintomas de ansiedade e melhorar a qualidade do sono em pacientes adultos. Zorzela et al. (2023) informaram que a dose de 10⁷ UFC de Lactobacillus reuteri melhorou a constipação funcional em crianças, mostrando que a resposta clínica não depende de alta concentração, mas de sua interação funcional com o hospedeiro.
Da mesma forma que no estudo clínico randomizado, duplo cego, com placebo controlado desenvolvido pela Gon1 biotech, em 2024, Ton et al. utilizou uma dose de 3 x 107 UFC/dia de mix probiótico em pacientes portadores de Parkinson e Alzheimer, obtendo resultados significantes.
Mais impressionante ainda, Eloe-Fadrosh et al. (2015) relataram que apenas 1 x 10⁶ UFC de Bifidobacterium adolescentisforam suficientes para promover modulação da expressão gênica intestinal em adultos saudáveis, incluindo genes relacionados à integridade da barreira intestinal e à resposta inflamatória, e esses achados colocam em xeque a narrativa dominante da indústria de que bilhões são sempre melhores, apontando para um novo paradigma baseado em qualidade, especificidade e tecnologia de entrega.
A tabela a seguir apresenta uma seleção de estudos clínicos e funcionais que demonstraram eficácia com concentrações probióticas abaixo de 1 x 10⁹ UFC/dia. Os dados mostram que diferentes cepas, quando adequadamente selecionadas e formuladas, podem exercer efeitos benéficos relevantes com doses significativamente menores do que as tradicionalmente utilizadas pela indústria. Todos os estudos listados são revisados por pares e representam evidências concretas de que a eficácia probiótica é mais dependente da cepa, formulação e alvo terapêutico do que do número absoluto de microrganismos.

A função acima da quantidade: A ciência por trás da eficácia
A colonização intestinal duradoura, antes considerada pré-requisito para a eficácia, já não é mais essencial, pois muitos dos efeitos desejados decorrem da produção de metabólitos funcionais, como ácidos graxos de cadeia curta, exopolissacarídeos e peptídeos imunomoduladores, e não da permanência prolongada no intestino. A interação entre os probióticos e receptores específicos do epitélio intestinal desencadeia respostas imunológicas, neurológicas e endócrinas capazes de impactar profundamente a saúde do hospedeiro, mesmo com doses muito baixas.
As tecnologias de liberação controlada, como o microencapsulamento e os sistemas lipossomais, têm desempenhado papel decisivo nessa mudança. Picó et al. (2022) demonstraram que apenas 5 x 10⁶ UFC de Lactobacillus plantarum, encapsulados em nanopartículas lipossomais, foram suficientes para colonização efetiva mesmo em modelos digestivos agressivos, e isso reforça a importância de pensar o probiótico como uma ferramenta de bioengenharia e não apenas como um agente de colonização volumétrica.
Perspectivas regulatórias: o papel da ANVISA e FDA na nova era
No Brasil, a Resolução RDC nº 241/2018 da ANVISA estabelece que a eficácia de probióticos deve ser comprovada por estudos clínicos com a dose e formulação propostas, sem impor um valor mínimo de UFC (ANVISA, 2018). Essa abordagem baseada em evidência abre espaço para o desenvolvimento de produtos com doses ajustadas, desde que clinicamente validadas.
Nos Estados Unidos, o FDA não impõe uma concentração mínima para produtos classificados como suplementos dietéticos ou GRAS (Generally Recognized As Safe), conforme seu guia técnico publicado em 2008. A agência concentra-se na segurança da cepa e na consistência entre o rótulo e a composição real, o que permite maior flexibilidade para formulações inovadoras com doses mais baixas (FDA, 2008).
Essa convergência regulatória impulsiona uma nova geração de probióticos com menor carga microbiana, mas maior precisão terapêutica. Produtos com baixa concentração são particularmente úteis para populações sensíveis, como crianças, idosos, pacientes imunocomprometidos e pessoas com disbiose severa, que se beneficiam de abordagens menos invasivas e mais moduladas.
Conclusão: A nova lógica da eficácia microbiana
O futuro da suplementação probiótica será determinado não pela quantidade bruta de microrganismos, mas pela sua inteligência funcional, e entramos na era dos probióticos de precisão, em que menos pode ser mais, desde que a formulação, a cepa e a tecnologia estejam alinhadas com o alvo terapêutico. A ciência, finalmente, começa a guiar o que por muito tempo foi território do marketing. É hora de abandonar o fetiche numérico e assumir um compromisso real com o que importa: eficácia baseada em ciência, segurança regulatória e impacto clínico relevante. A nova geração de produtos probióticos será definida não pela colonização quantitativa, mas pela modulação estratégica do microbioma e pela entrega inteligente de soluções biológicas.
Referências Bibliográficas
AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. RDC nº 241, de 26 de julho de
2018. Dispõe sobre os requisitos para comprovação da segurança e dos benefícios à saúde de probióticos em alimentos. Diário Oficial da União, Brasília, 2018.
FDA – U.S. Food and Drug Administration. Guidance for Industry: Substantiation for Dietary Supplement Claims Made Under Section 403(r)(6) of the Federal Food, Drug, and Cosmetic Act. December 2008.
ELOE-FADROSH, E. A. et al. Functional dynamics of the gut microbiome in health and disease: Influence of low-dose probiotics on gene expression. Cell Host & Microbe, v. 18, p. 491–503, 2015.
HALPERN, R. et al. Efficacy of low-dose Bifidobacteria in anxiety modulation: A double- blind randomized study. Journal of Psychiatric Research, v. 131, p. 134-141, 2020.
HILL, C. et al. Expert consensus document: The ISAPP consensus statement on the appropriate use of the term probiotic. Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology,
v. 11, p. 506-514, 2014.
MCFARLAND, L. V. From Yaks to Yogurt: The history, development, and current use of probiotics. World Journal of Gastroenterology, v. 21, n. 1, p. 106-118, 2015.
PICÓ, C. et al. Liposomal delivery of Lactobacillus plantarum improves stability and effectiveness in gastrointestinal simulation. Food & Function, v. 13, p. 1902-1910, 2022.
ZORZELA, L. et al. Mechanisms of low-dose probiotics in pediatric constipation: Focus on reuterin production. Pediatric Research, v. 94, p. 110–117, 2023.
*Pesquisador e Diretor de pesquisa da Gon1 Biotech
Doutor Honoris Causa em Biotecnologia aplicada em saúde
Doutorando em gestão e tecnologia industrial: desenvolvimento de novos produtos
2A+ Farma Portal de notícias
