domingo , 24 outubro 2021
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Variante Gama (P.1) é mais agressiva, mas pode ser contida com vacina e lockdown, comprova estudo

Ao correlacionar dados de sequenciamento genômico e análises epidemiológicas na cidade de São José do Rio Preto (SP), pesquisadores conseguiram demonstrar o impacto da prevalência da variante P.1 (hoje denominada Gama) na alta de casos e mortes por COVID-19. A maior transmissibilidade dessa cepa foi associada ao aumento expressivo de casos graves (127%) e mortes (162%) em março e abril de 2021, no município do interior paulista.

O estudo, divulgado na plataforma medRxiv ainda sem a revisão de pares, ressalta a importância da vacinação para a proteção da população e a eficácia do lockdown de 15 dias, estipulado na cidade em março, para conter a disseminação do vírus.

“São conclusões esperadas, mas que precisam de uma comprovação clara por causa do ambiente em que vivemos. Nosso estudo confirma que as vacinas protegem da morte por COVID-19 e o lockdown funciona para reduzir a circulação do vírus. Fora isso, conseguimos demonstrar que a P.1 é, de fato, uma variante mais agressiva, algo que ainda não estava tão claro entre a comunidade científica”, diz Maurício Lacerda Nogueira, professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp).

O estudo foi realizado pelo Laboratório de Pesquisas em Virologia da Famerp no Hospital de Base (HB) de Rio Preto, em parceria com a Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade de São Paulo (USP), Fundação Bill &Melinda Gates, Universidade de Washington, University of Texas Medical Branch e Secretaria Municipal de Saúde de São José do Rio Preto. O grupo teve apoio da FAPESP, da Rede Corona-ômica (mantida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inocações por meio da Financiadora de Estudos e Projetos e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), do Instituto Butantan e do National Institutes of Health, dos Estados Unidos.

No âmbito do estudo, a vigilância genômica do SARS-CoV-2 em Rio Preto e região vem sendo realizada desde outubro de 2020. Os pesquisadores analisaram 272 genomas completos do novo coronavírus a fim de detectar a prevalência das variantes. Das 12 linhagens identificadas, as mais prevalentes foram P.1 (72,4%), P.2 (11%), B.1.1.28 (5,6%) e N.9 (4,6%).

O baile das variantes

Variantes são formas mutantes do vírus e, embora a grande maioria apresente comportamento epidemiológico similar ao da cepa ancestral, algumas delas preocupam por serem potencialmente mais transmissíveis ou até mais letais. A linhagem P.1 (Gama) surgiu no início de novembro de 2020, em Manaus (AM), e rapidamente se espalhou para outros Estados brasileiros, principalmente os da região Sudeste.

Em dezembro de 2020, a variante B.1.1.7 (Alfa) foi detectada pela primeira vez no Reino Unido. Atribui-se a ela uma transmissão aumentada entre 30% e 50% e a gravidade dos casos é 30% superior.

Já na África do Sul, foi detectada pela primeira vez a variante B.1.351 (Beta), associada ao aumento do risco de transmissão e redução na neutralização viral por terapia com anticorpos monoclonais, soros convalescentes e soros pós-vacinação.

Mais recentemente a variante Delta, detectada pela primeira vez na Índia, se espalhou pelo mundo, possivelmente impactando a recente alta de casos na Europa, Estados Unidos e China.

Variante Gama, um estudo de caso

Nogueira explica que, a partir do fim do ano passado, a cidade de São José do Rio Preto passou por dois grandes picos de casos e mortes: um em dezembro de 2020 e outro em fevereiro de 2021, quando as ocorrências da doença explodiram.

“De acordo com a análise, em outubro do ano passado estavam circulando várias variantes do coronavírus. Em dezembro, no entanto, houve o predomínio da P.2 [detectada pela primeira vez no Rio de Janeiro], o que pode ter resultado na alta de casos, mas sem aumento na gravidade da doença. Foi no dia 26 de janeiro de 2021 que detectamos o primeiro caso de P.1 no município e, logo depois, essa cepa passou a ser dominante. É nesse período, a partir de março, que ocorre um aumento de mais de 100% no número de casos graves e mortes”, revela Nogueira.

O pesquisador explica que não é possível afirmar que a P.2 tenha sido responsável pelo aumento de casos no fim de 2020. Isso porque o período das festas também coincidiu com uma maior circulação de pessoas por todo o país e, por consequência, maior transmissão da doença.

Já no caso da P.1 (Gama), de acordo com o pesquisador, essa correlação pode ser comprovada, o que põe fim a uma grande discussão na comunidade científica para saber se a variante era realmente mais agressiva e responsável por um maior número de mortes.

“Os estudos realizados em Manaus indicavam a morte de um número muito alto de pessoas e, em janeiro, ocorreu o colapso total do sistema de saúde no Amazonas, faltou oxigênio, pessoas morreram sem conseguir respirar e até mesmo bebês em incubadoras [que não necessariamente tinham COVID-19] precisaram ser transferidos para receber tratamento em outros Estados. Além da variante, ocorreu uma série de outros fatores bem conhecidos que levaram a uma situação de crise humanitária”, diz.

A situação de São José do Rio Preto em março era diferente da de Manaus em janeiro de 2021. O município paulista de 400 mil habitantes tem um sistema de saúde mais robusto e adotou lockdown no pico da transmissão da variante P.1. “Em Rio Preto não houve colapso do sistema de saúde, nem faltou oxigênio. Foi muito duro o que aconteceu, chegamos a ter 300 pessoas em UTIs [unidades de terapia intensiva], mas sem atingir a lotação máxima. Tivemos um ou dois dias com 100% de ocupação de leitos. Mesmo com esse cenário melhor, a mortalidade foi muito maior que a dos picos anteriores. Isso se deu porque a P.1 é uma variante mais agressiva”, avalia.

Vacinas salvam vidas

Outro fator importante foi que o período de alta de contágios da P.1 na cidade paulista coincidiu com a vacinação dos idosos. “Quando houve a disseminação da P.1 no município praticamente 100% dos maiores de 70 anos estavam vacinados, a maioria com CoronaVac. Segundo o estudo, as vacinas correspondem entre 60% e 70% de proteção contra a morte de casos graves nessa população vacinada, o que é uma ótima notícia”, diz.

De acordo com Nogueira, os estudos de vigilância genômica continuam. A equipe vai investigar tanto o que aconteceu no ano passado (antes do surgimento das novas variantes), quanto monitorar os próximos meses da pandemia. “Continuamos fazendo essas análises e correlações semanalmente. Ainda não detectamos a variante Delta no município, mas acredito que isso é questão de tempo. O estudo vai nos permitir acompanhar o impacto da provável competição entre a Delta e a Gama”, prevê.

Ele ressalta que, embora tenha tido ocorrência de variante Gama na Inglaterra e nos Estados Unidos, a Europa não foi atingida por ela. “ Lá a Gama não competiu de deforma direta com a Delta. Mas isso pode estar acontecendo aqui no Brasil, como mostram estudos no Rio de Janeiro, onde a prevalência da Delta está avançando”, diz.

O artigo Effects of SARS-CoV-2 P.1 introduction and the impact of COVID-19 vaccination on the epidemiological landscape of São José Do Rio Preto, Brazil pode ser lido em www.medrxiv.org/content/10.1101/2021.07.28.21261228v1.

Fonte: Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP 

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