Regulação, pesquisa e certificação profissional abrem espaço para inovação; Aline Goulart, autora de estudo com lontras e outros mustelídeos, defende avanço baseado em evidências e bem-estar animal
São Paulo, agosto de 2026 – A indústria brasileira de produtos para saúde animal faturou R$ 12,859 bilhões em 2025, segundo dados consolidados pelo Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan). No mesmo ano, o setor pet movimentou R$ 77,96 bilhões, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abempet). Dentro dessas cadeias econômicas, uma nova frente começa a ganhar estrutura regulatória, científica e profissional: a endocanabinologia veterinária.
A possibilidade de prescrição por médicos-veterinários, o caminho para o registro de produtos de uso animal pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) e a criação de um processo formal de certificação profissional mudam o patamar da discussão. O tema passa a interessar não apenas a congressos e grupos de pesquisa, mas também à indústria farmacêutica veterinária, universidades, clínicas, laboratórios, empresas de tecnologia e centros de conservação.
Esse movimento não representa liberação irrestrita nem um mercado pronto. Produtos e tratamentos precisam observar as exigências sanitárias e regulatórias, e a expansão da área depende de estudos por espécie, controle de qualidade, rastreabilidade, farmacovigilância e formação profissional.
É nesse cenário que a médica-veterinária e pesquisadora Aline Gonçalves Goulart se destaca. Mestre em Medicina Veterinária Convencional e Integrativa pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), integrante da Comissão Técnica de Endocanabinologia Veterinária do CRMV-SP e cofundadora da VetCann Brasil – Educação e Pesquisa, ela reúne mais de duas décadas de atuação profissional, pesquisa, prática clínica e formação de médicos-veterinários.
“Defendo uma regulamentação técnica, ética e baseada em evidências científicas, que ofereça segurança aos profissionais, aos responsáveis e, principalmente, aos animais”
Regulação transforma debate em agenda concreta
A Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 936/2024, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), tornou expressa a possibilidade de médicos-veterinários legalmente habilitados prescreverem medicamentos e produtos de cannabis regularizados no Brasil. O alcance inclui medicamentos registrados na Anvisa, produtos de cannabis com autorização sanitária e produtos de uso exclusivo animal que venham a ser regularizados pelo MAPA. A dispensação segue as regras aplicáveis aos produtos sujeitos a controle especial.
Em 2026, a RDC nº 1.015 substituiu a RDC nº 1.015/2026 e atualizou o marco para autorização sanitária, fabricação e importação de produtos de cannabis de uso medicinal humano. Na esfera veterinária, a Portaria MAPA nº 837/2025 estabeleceu o regime de controle especial e os procedimentos de aquisição, escrituração, prescrição, dispensação e rotulagem para substâncias controladas e produtos veterinários que as contenham. Produtos de cannabis destinados exclusivamente a animais ainda precisam ser analisados e registrados pelo MAPA; a manipulação depende de regulamentação específica.
“Nem toda doença exige cannabis e nem toda cannabis serve para todos os pacientes. Cada animal precisa de avaliação clínica, indicação individualizada e monitoramento da resposta ao tratamento”
Pesquisa com lontras amplia fronteira científica
O principal marco científico da trajetória de Aline é a dissertação “Uso da Cannabis para tratamento de estereotipias da família Mustelidae em condições de recinto artificial”, defendida na UFSC em fevereiro de 2025. Desenvolvida em parceria com o Projeto Lontra e o Instituto Ekko Brasil, a pesquisa avaliou um extrato rico em canabidiol (CBD) e com baixo teor de tetraidrocanabinol (THC), na proporção 10:1, em animais com comportamentos estereotipados associados ao estresse e à ansiedade.
Entre os comportamentos observados estavam nado repetitivo, vocalizações, lambedura excessiva, automutilação e pacing – deslocamento repetitivo de um lado para o outro, sem finalidade aparente. Seis animais da família Mustelidae foram inicialmente selecionados, e cinco concluíram a avaliação, entre lontras, iraras e um furão.
Os resultados indicaram redução de comportamentos estereotipados, com respostas diferentes conforme o indivíduo, a espécie, a dose e o periodo de observação, ao mesmo tempo. A sonolência foi o efeito adverso relatado e monitorado. A própria pesquisa reconhece limitações, como o número reduzido de animais e a interferência de fatores ambientais; por isso, os achados não podem ser generalizados para todas as espécies ou situações clínicas.
“Reconhecer que ainda existem lacunas não significa negar os avanços já alcançados. Pelo contrário: reforça a necessidade de investir em pesquisa de qualidade, formação profissional e produção de evidências”
O estudo abre uma frente ainda pouco explorada para zoológicos, centros de conservação, criadouros científicos e instituições que mantêm animais silvestres sob cuidados humanos. Também evidencia a necessidade de formulações, métodos de monitoramento e estudos de segurança específicos para cada espécie.
Do mercado pet às cadeias de produção animal
Embora cães e gatos representem a face mais visível da cannabis veterinária, os possíveis desdobramentos alcançam outras áreas da saúde animal. Na clínica, Aline acompanha casos relacionados a dor crônica, osteoartrite, epilepsia, doenças neurológicas, alterações comportamentais, dermatopatias e cuidados integrativos de pacientes oncológicos. Sua experiência também inclui aves, animais silvestres e espécies não convencionais.
Nas cadeias de produção de alimentos, a discussão exige cautela adicional. Qualquer uso potencial depende de estudos de resíduos, segurança alimentar, metabolismo por espécie, definição de período de carência e autorização dos órgãos competentes. Portanto, a cannabis não deve ser apresentada como solução imediata para bovinos, aves, suínos ou outras cadeias produtivas.
Ao mesmo tempo, o avanço regulatório pode estimular pesquisas em dor, inflamação, neurologia, comportamento, bem-estar e redução do estresse, desde que conduzidas dentro de protocolos científicos e sanitários claramente definidos.
Certificação amplia demanda por qualificação
Em julho de 2026, a Resolução CFMV nº 1.705 habilitou a Associação Medicinal de Endocanabinologia Veterinária (AMEC-VET) a conduzir o processo de concessão do título de especialista em Endocanabinologia Veterinária. A medida estabelece um caminho institucional para avaliar formação, experiência e conhecimento dos profissionais da área.
A habilitação da entidade não transforma automaticamente profissionais experientes em especialistas titulados. A concessão individual depende do cumprimento dos requisitos, das avaliações previstas e do registro profissional correspondente.
Para Aline, a formação não deve se limitar à prescrição. Precisa incluir fisiologia do sistema endocanabinoide, farmacologia, toxicologia, interações medicamentosas, leitura crítica de estudos, escolha de produtos, titulação de dose, controle de eventos adversos e acompanhamento do paciente.
“A endocanabinologia não substitui a medicina veterinária tradicional. Ela complementa o conhecimento clínico. Mesmo quem não utiliza cannabis precisa compreender o sistema endocanabinoide para tomar decisões mais completas e fundamentadas”
Uma trajetória entre ciência, clínica e educação
Graduada em Medicina Veterinária pela UNIFEOB em 2004, Aline possui pós-graduação em Diagnóstico por Imagem de Pequenos Animais pela Qualittas, extensão em Cannabis Medicinal pela Unifesp, pós-graduação em Cannabis Medicinal pela Unyleya e mestrado pela UFSC com foco em medicina convencional e integrativa.
Sua trajetória reúne atendimento clínico, pesquisa, docência, consultoria técnica e educação continuada. Como membro efetivo da Comissão Técnica de Endocanabinologia Veterinária do CRMV-SP, participa do diálogo entre ciência, prática clínica, profissionais e órgãos reguladores. Na VetCann Brasil, desenvolve ações de educação, pesquisa, divulgação científica, formação profissional e consultoria à indústria veterinária.
Mais do que defender uma terapia específica, Aline sustenta que o mercado precisa avançar no mesmo ritmo da ciência, da regulamentação e da capacidade de garantir acompanhamento seguro aos pacientes.
“A ciência nos mostra o caminho; a ética determina como devemos percorrê-lo; e o bem-estar animal é a razão de cada decisão que tomamos”
Sobre a VetCann Brasil
A VetCann Brasil – Educação e Pesquisa atua na prática clínica, na educação continuada, na divulgação científica e no desenvolvimento da Endocanabinologia e da Medicina Veterinária Integrativa. A iniciativa conecta atendimento, pesquisa, cursos, treinamentos, produção de conteúdo técnico, consultoria à indústria veterinária e parcerias no Brasil e na América Latina
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