A produção farmacêutica global depende de uma cadeia de suprimentos (supply chain) altamente especializada, que envolve insumos científicos, controle rigoroso de qualidade e logística avançada. Apesar de pouco visíveis ao consumidor final, falhas nesse processo podem ocasionar diversos problemas na fabricação de medicamentos essenciais, e gerar impactos diretos na saúde pública.
Dados recentes indicam que cerca de 65% a 70% dos APIs (produção de insumos farmacêuticos ativos) utilizados no mundo são fabricados na China e na Índia, o que torna a cadeia vulnerável pela concentração desses insumos. Segundo Eduardo Bravim, especialista em biotecnologia farmacêutica, instrumentação analítica, controle de qualidade e supply chain científico com atuação internacional, essa dependência excessiva cria riscos sistêmicos. “Eventos locais, como paralisações industriais, riscos regulatórios, problemas sanitários ou dificuldades logísticas, podem gerar escassez global de medicamentos em poucas semanas”, afirma.
Além da concentração geográfica, as falhas de qualidade ao longo da cadeia também representam um risco silencioso. Bravim destaca que problemas na pureza de insumos, desvios em análises laboratoriais ou inconsistências em processos de validação podem resultar na interrupção imediata de linhas de produção ou no recolhimento de lotes inteiros. Neste cenário, a logística científica e farmacêutica surge como outro ponto sensível indicado pelo especialista. “Qualquer falha durante o transporte internacional, armazenamento ou distribuição de medicamentos que exigem cadeia fria rigorosa pode comprometer a eficácia do produto, gerar perdas financeiras e atrasar o abastecimento em hospitais e farmácias”, explica.
Diante dessas circunstâncias, a busca por resiliência no supply chain científico tornou-se prioridade estratégica. Para Bravim, as principais medidas estão na diversificação de fornecedores, investimentos em produção regional, criação de estoques estratégicos de insumos críticos e o uso de tecnologias digitais para rastreamento e monitoramento em tempo real. “O fortalecimento dessas cadeias vai além da eficiência econômica. Garantir a robustez do supply chain científico é uma questão de segurança sanitária global. Quando a cadeia falha, não é apenas a indústria que para, os tratamentos também deixam de chegar aos pacientes, um ponto fortemente crítico, que pode ocasionar grandes fatalidades”, conclui.
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