Por Eduardo Rocha Bravim, especialista em biotecnologia farmacêutica, instrumentação analítica, controle de qualidade e supply chain científico com atuação internacional
A transformação digital vem avançando rapidamente em diversos setores da economia, e a indústria farmacêutica está entre as áreas que mais investem em inovação para elevar os níveis de eficiência, qualidade e segurança de seus processos. Nesse contexto, uma tecnologia vem ganhando destaque nas discussões sobre o futuro do setor: o digital twins, ou gêmeos digitais.
A tecnologia consiste na criação de uma réplica virtual de equipamentos, processos ou sistemas físicos, capaz de integrar dados em tempo real, modelos matemáticos e ferramentas analíticas avançadas. Com isso, torna-se possível monitorar operações, simular cenários e prever comportamentos antes mesmo que eles ocorram no ambiente real.
O crescente interesse pela tecnologia está diretamente relacionado à capacidade de compreender e simular processos de forma muito mais completa do que os modelos convencionais. Afinal, o digital twins permite que as empresas entendam seus processos em profundidade. Ao invés de analisar apenas dados históricos, é possível acompanhar virtualmente o comportamento de equipamentos, processos e produtos em tempo real, antecipando situações e apoiando decisões mais rápidas e seguras.
Uma das principais diferenças em relação aos métodos tradicionais de monitoramento está justamente na capacidade preditiva. Enquanto os sistemas convencionais mostram o que aconteceu ou o que está acontecendo naquele momento, os gêmeos digitais combinam dados em tempo real, modelagem matemática e inteligência artificial para prever comportamentos futuros e testar cenários antes que eles ocorram na prática.
Os benefícios podem ser observados em praticamente toda a jornada do medicamento, já que a tecnologia pode apoiar desde o desenvolvimento de formulações, escalonamento de processos e transferência de tecnologia até o monitoramento da produção, controle de qualidade, manutenção de equipamentos e gestão de riscos. Além de ampliar a visibilidade sobre as operações, o digital twins contribui para a prevenção de falhas e desvios de processo. Ao comparar continuamente o desempenho esperado com os dados reais da operação, o sistema consegue identificar tendências fora do padrão e emitir alertas antes que o problema afete o produto final.
Essa capacidade de antecipação reduz perdas, retrabalhos e riscos regulatórios, além de fortalecer a qualidade dos processos e a confiabilidade das operações. Porém, apesar do potencial transformador, a implementação dos gêmeos digitais ainda apresenta desafios importantes, o principal deles não está na tecnologia em si, mas na qualidade dos dados disponíveis, pois, para que um gêmeo digital funcione adequadamente, é necessário contar com processos estruturados, equipamentos integrados, rastreabilidade das informações e uma cultura organizacional orientada à análise de dados. Além disso, existem desafios relacionados a investimentos, validação dos sistemas e conformidade regulatória.
Nos próximos anos, a tendência é que a integração com Inteligência Artificial, Machine Learning, Pharma 4.0 e Process Analytical Technology (PAT) acelere ainda mais a evolução do digital twins. A expectativa é que laboratórios, manufatura e cadeia de suprimentos estejam cada vez mais conectados, formando ambientes altamente automatizados, inteligentes e preditivos. Para as empresas do setor, investir em digital twins significa não apenas acompanhar a transformação digital, mas construir operações mais inteligentes, reduzir custos, fortalecer a qualidade dos produtos e acelerar a chegada de medicamentos seguros aos pacientes.
2A+ Farma Portal de notícias
